Um forte odor sulfuroso carregado por vapores de uma insidiosa fumaça ocre começava a molestar a respiração dos presentes.
O
tal hóspede, recém chegado, seguia mergulhado no pântano do blecaute,
mas a pele da escuridão foi, aos poucos, sendo tatuada pelos traços de
uma intensa fluorescência, atribuindo-lhe forma.
Em princípio, restrita ao vértice da sala, a luz tomava conta do espaço como os tentáculos de uma besta bíblica, assediando a vista alheia tanto pelas cores, como pelo calor palpitante exalado.
Ainda que em tímido esboço, como uma imagem de fotografia "light painting", a silhueta do vago anônimo agora fazia-se conhecer, borrada sobre a fumígena e rubra parede do mausoléu bolchevique.
Mas a tal voz que há pouco ameaçara o nazareno, recolhera-se ao silêncio.
- Ó exilado! Ó querubim decaído, o que queres? Não te bastou a derrota frente ao arcanjo Miguel? bradou o nazareno em direção ao vagante.
A cripta abalou-se em tremor sísmico violento. E todos caíram, misturando-se uns aos outros, trôpegos e desajeitados.
A silhueta do querubim decaído se inflamou em tons de violeta. x.x.x.x.x
- Exilado e decaído! gritou João, tentando erguer-se em vão, arremessado ao solo pelo repetido trepidar convulso da terra.
- O que fazes aqui, querubim rebelde? indagou-lhe o nazareno, caído próximo à mesa, sem disfarçar irritação.
Ainda que insistentemente tentado pelo nazareno e sua máfia, o alumbrado vulto não se defendia pelo sabre cego do verbo. Antes, deixava que a terra lhes aplicasse em sísmicos abalos um sádico corretivo. Destarte, "decaído" era um atributo que serviria melhor àquele grupo de ilustres acusadores da Galileia.
x.x.x.x.x
As feridas ainda abertas no chão pela ancestral batalha entre o "bem" e o "mal" seguiam vivas nas profundezas geológicas.
A queda das legiões de Lúcifer sobre a Terra ainda ressoava nos terremotos, gementes rachaduras, estrondosas lembranças em pedaços de placas tectônicas continentais.
Um cataclisma avassalador a seguir fez-se erguer, como um Leviatã, em tremores, ventania e temporal.
O nazareno e sua comitiva foram engolidos de vez por aquele tornado,como um remake do filme "Mágico de Oz".
García, Madalena e o Iscariotes permaneciam de pé, curiosamente, imunes ao ciclone.
x.x.x.x.x
Depois de demasiada tormenta, a calmaria se refez e aquele velho sótão do mausoléu do Kremlim havia se transformado em um salão de tribunal, feito um milagre dos céus.
Os errantes da Galileia permaneciam estirados ao chão, quietos e calados, próximos ao banco dos réus.
O fulgor da silhueta flamejante ardia acomodada sobre o assento reservado ao juiz.
Guardas encapuzados como carrascos faziam-lhe a segurança, a cada lado da esplanada.
- Todos de pé! bradou a voz grave e firme do guarda,rasgando o ar, demarcando o respeito deferido aos magistrados.
O nazareno no banco dos réus. Ora, ora... Assim como toda a gangue de falsários.
O julgamento anunciado à humanidade, no suposto fim dos seus dias, agora tornara-se um "feitiço contra o próprio feiticeiro".
Em princípio, restrita ao vértice da sala, a luz tomava conta do espaço como os tentáculos de uma besta bíblica, assediando a vista alheia tanto pelas cores, como pelo calor palpitante exalado.
Ainda que em tímido esboço, como uma imagem de fotografia "light painting", a silhueta do vago anônimo agora fazia-se conhecer, borrada sobre a fumígena e rubra parede do mausoléu bolchevique.
Mas a tal voz que há pouco ameaçara o nazareno, recolhera-se ao silêncio.
- Ó exilado! Ó querubim decaído, o que queres? Não te bastou a derrota frente ao arcanjo Miguel? bradou o nazareno em direção ao vagante.
A cripta abalou-se em tremor sísmico violento. E todos caíram, misturando-se uns aos outros, trôpegos e desajeitados.
A silhueta do querubim decaído se inflamou em tons de violeta. x.x.x.x.x
- Exilado e decaído! gritou João, tentando erguer-se em vão, arremessado ao solo pelo repetido trepidar convulso da terra.
- O que fazes aqui, querubim rebelde? indagou-lhe o nazareno, caído próximo à mesa, sem disfarçar irritação.
Ainda que insistentemente tentado pelo nazareno e sua máfia, o alumbrado vulto não se defendia pelo sabre cego do verbo. Antes, deixava que a terra lhes aplicasse em sísmicos abalos um sádico corretivo. Destarte, "decaído" era um atributo que serviria melhor àquele grupo de ilustres acusadores da Galileia.
x.x.x.x.x
As feridas ainda abertas no chão pela ancestral batalha entre o "bem" e o "mal" seguiam vivas nas profundezas geológicas.
A queda das legiões de Lúcifer sobre a Terra ainda ressoava nos terremotos, gementes rachaduras, estrondosas lembranças em pedaços de placas tectônicas continentais.
Um cataclisma avassalador a seguir fez-se erguer, como um Leviatã, em tremores, ventania e temporal.
O nazareno e sua comitiva foram engolidos de vez por aquele tornado,como um remake do filme "Mágico de Oz".
García, Madalena e o Iscariotes permaneciam de pé, curiosamente, imunes ao ciclone.
x.x.x.x.x
Depois de demasiada tormenta, a calmaria se refez e aquele velho sótão do mausoléu do Kremlim havia se transformado em um salão de tribunal, feito um milagre dos céus.
Os errantes da Galileia permaneciam estirados ao chão, quietos e calados, próximos ao banco dos réus.
O fulgor da silhueta flamejante ardia acomodada sobre o assento reservado ao juiz.
Guardas encapuzados como carrascos faziam-lhe a segurança, a cada lado da esplanada.
- Todos de pé! bradou a voz grave e firme do guarda,rasgando o ar, demarcando o respeito deferido aos magistrados.
O nazareno no banco dos réus. Ora, ora... Assim como toda a gangue de falsários.
O julgamento anunciado à humanidade, no suposto fim dos seus dias, agora tornara-se um "feitiço contra o próprio feiticeiro".
- Eu verto em ti o que tu gostas de verter nos outros: a culpa! disse o juiz, abrindo solenemente a sessão.
E prosseguiu:
-
Em verdade, quando enfrentamos Miguel e o exército de anjos
mercenários, estávamos lá em defesa da humanidade. Nossa insurreição
foi contra a criação do pecado e dos tantos impostos impagáveis para o
acuado "homem de barro".
O discurso da figura flamejante retumbava claras as palavras, como se ali estivessem na concha de um teatro grego.
-
A proibição da ira, vingança, mágoa, ressentimento, descrença e dúvida,
orgulho e vaidade, libido e luxúria e todas as idiossincrasias humanas
parecia-nos uma absurda contradição.
E quando o homem se viu sozinho e perseguido, abandonamos o conforto do paradisíaco refúgio celeste e buscamos aqui o autoexílio para ampará-lo da fúria daquele que o abandonou.
A sessão de julgamento do carpinteiro de Nazaré e seus apóstolos estava apenas começando. Os designados réus olhavam em todas as direções, ainda sem acreditar no que estava a lhes ocorrer, ocupando o assento que lhes era destinado.
x.x.x.x.x
O nazareno ajoelhou-se e pôs-se a rezar. Os onze restantes também intentaram fazê-lo, não fosse o grito lancinante de um dos guardas.
- De pé, todos! bradou aquele que comandava a guarda.
A meretíssima figura retomou o discurso.
- Nazareno, tu e a tua plêiade da piedade só tem maus exemplos para a humanidade. Diante de qualquer adversidade, ajoelham-se, como párias inválidos, recurvando-se diante dos problemas e clamam por um "pai" ausente, em lugar de enfrentá-los como seres que honram a linhagem da qual descendem...
Os olhos do juiz transbordavam em ira e faíscas. Mirá-los diretamente fazia-se tarefa dura e os julgados ouviam-no, agora de pé, cabisbaixos e algemados. A saga oratória ainda não tivera interrupto.
- Um animal enfrenta ou evita o perigo, mas sai de cabeça erguida. Enquanto os humanos adestrados por tua crença se ajoelham. Covardes! Aqui nesse tribunal enfrentarão o julgamento. E não haverá subterfúgios. Que se cumpram os ritos! concluiu sem esconder um suspiro sonoro, guardado há milênios em seu peito.
A luz novamente recuou e uma discreta penumbra púrpura assomou-se sobre a sala. Ainda assim, o fulgor dos olhos do diabólico permanecia ali, onisciente e onipresente, como dizia-se do olhar daquele que se apregoa o "onipotente".
"Legio nomen mihi est, quia multi summus", surgiu luminescente a inscrição latina gravada em sangue na parede escura logo acima da poltrona do juiz.
As mansardas, até então quietas e cerradas junto ao teto, abriram-se, uma após a outra, desabando e rangendo suas dobradiças enferrujadas, como se seguissem ordens superiores.
Assim se fez passagem, rasgando o vidro em estilçhaços, uma legião de anjos decaídos, em tropel desenfreado, sobrevoando as cabeças dos presentes, um ballet de vôo acrobático de artistas do "Cirque du Soleil".
A horda volante do exército rebelde revoava impetuosa, entre flashs e vultos, fotogramas percorrendo espectros de radiações invisíveis ao olho do "homem de barro". A assustadora coreografia evoluía marcada por acordes de um misterioso violinista que executava o dedilhado do "Carnaval de Veneza" no alto de uma das mansardas quebradas.
A legião que um dia o nazareno fizera encarnar nos porcos, "curando um endemoniado", regressava do desfiladeiro, ilesa da ida ao abismo e sedenta pelo reencontro, agora diante do demônio de fato.
"Legio nomen mihi est", disse o juiz, erguendo-se da cadeira em saudação ao espetáculo.
E a horda completou: "quia multi summus", como um coro de canto gregoriano medievo,.
Em seguida, tomaram os corpos dos réus de assalto e fizeram-lhes vestir um traje mais adequado àquela ocasião, uma túnica de "sambenito", exatamente como aquela que a Santa Inquisição impunha aos acusados.
Os réus vestiram então a humilhante túnica feita em algodão cru, fiada pelas próprias mãos do inquisidor do nazareno, aquele que prometera ser o seu "Torquemada", em memória do martelo dos hereges.
O violinista da mansarda sumira, assim como chegara, repentino e sombrio.
E quando o homem se viu sozinho e perseguido, abandonamos o conforto do paradisíaco refúgio celeste e buscamos aqui o autoexílio para ampará-lo da fúria daquele que o abandonou.
A sessão de julgamento do carpinteiro de Nazaré e seus apóstolos estava apenas começando. Os designados réus olhavam em todas as direções, ainda sem acreditar no que estava a lhes ocorrer, ocupando o assento que lhes era destinado.
x.x.x.x.x
O nazareno ajoelhou-se e pôs-se a rezar. Os onze restantes também intentaram fazê-lo, não fosse o grito lancinante de um dos guardas.
- De pé, todos! bradou aquele que comandava a guarda.
A meretíssima figura retomou o discurso.
- Nazareno, tu e a tua plêiade da piedade só tem maus exemplos para a humanidade. Diante de qualquer adversidade, ajoelham-se, como párias inválidos, recurvando-se diante dos problemas e clamam por um "pai" ausente, em lugar de enfrentá-los como seres que honram a linhagem da qual descendem...
Os olhos do juiz transbordavam em ira e faíscas. Mirá-los diretamente fazia-se tarefa dura e os julgados ouviam-no, agora de pé, cabisbaixos e algemados. A saga oratória ainda não tivera interrupto.
- Um animal enfrenta ou evita o perigo, mas sai de cabeça erguida. Enquanto os humanos adestrados por tua crença se ajoelham. Covardes! Aqui nesse tribunal enfrentarão o julgamento. E não haverá subterfúgios. Que se cumpram os ritos! concluiu sem esconder um suspiro sonoro, guardado há milênios em seu peito.
A luz novamente recuou e uma discreta penumbra púrpura assomou-se sobre a sala. Ainda assim, o fulgor dos olhos do diabólico permanecia ali, onisciente e onipresente, como dizia-se do olhar daquele que se apregoa o "onipotente".
"Legio nomen mihi est, quia multi summus", surgiu luminescente a inscrição latina gravada em sangue na parede escura logo acima da poltrona do juiz.
As mansardas, até então quietas e cerradas junto ao teto, abriram-se, uma após a outra, desabando e rangendo suas dobradiças enferrujadas, como se seguissem ordens superiores.
Assim se fez passagem, rasgando o vidro em estilçhaços, uma legião de anjos decaídos, em tropel desenfreado, sobrevoando as cabeças dos presentes, um ballet de vôo acrobático de artistas do "Cirque du Soleil".
A horda volante do exército rebelde revoava impetuosa, entre flashs e vultos, fotogramas percorrendo espectros de radiações invisíveis ao olho do "homem de barro". A assustadora coreografia evoluía marcada por acordes de um misterioso violinista que executava o dedilhado do "Carnaval de Veneza" no alto de uma das mansardas quebradas.
A legião que um dia o nazareno fizera encarnar nos porcos, "curando um endemoniado", regressava do desfiladeiro, ilesa da ida ao abismo e sedenta pelo reencontro, agora diante do demônio de fato.
"Legio nomen mihi est", disse o juiz, erguendo-se da cadeira em saudação ao espetáculo.
E a horda completou: "quia multi summus", como um coro de canto gregoriano medievo,.
Em seguida, tomaram os corpos dos réus de assalto e fizeram-lhes vestir um traje mais adequado àquela ocasião, uma túnica de "sambenito", exatamente como aquela que a Santa Inquisição impunha aos acusados.
Os réus vestiram então a humilhante túnica feita em algodão cru, fiada pelas próprias mãos do inquisidor do nazareno, aquele que prometera ser o seu "Torquemada", em memória do martelo dos hereges.
O violinista da mansarda sumira, assim como chegara, repentino e sombrio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário