Um diário de bordo do "alter ego" Federico García Louco. Um anticristo devoto. Um apóstolo da verdade nua, crua e crucificada! F.G. Louco é odiado e difamado pela igreja e seus asseclas. Biógrafo dos decaídos expulsos pelo déspota Gabriel. Multiplicou os "pecados". Ressuscitou o Judas. Negou a mentira por três vezes. Revogou o fim do mundo. Ama o próximo, tentando expulsar as falácias que o atormentam. Venha para a Salvação do inferno imposto pela culpa, pela "fé" e a religião.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
terça-feira, 29 de maio de 2012
F. G. Louco Entrevista - O Sacrifício de Judas
O sol já tocava o zênite do céu do oriente.
Os mercadores cochilavam sob as sombrias
pilastras do templo, escondidos da febre do mormaço do meio-dia. Os
andrajos salpicados de pulgas e suor. A páscoa era vindoura.
A poucas vielas dali, detido e jogado no
calabouço, o prisioneiro Judas perambulava pelos vastos corredores da
alucinação em que fora arremessado, dissolvido na infusão da erva
maquiavélica.
O labirinto dos sonhos o despejou no
deserto, sem identidade, sem bagagem, um peregrino enfrentando as
tempestades de areia do Egito.
Exausto, faminto e alvejado por vento,
areia e delírios, ele avistou um oásis, nele a imagem de uma mulher
deitada à beira de um regato, na calmaria sedutora da luz púrpura do
crepúsculo.
As pernas do nômade discutiam
com seus olhos. A hipnótica miragem na linha do horizonte, tão perto e tão
distante, cobrava altos impostos ao seu físico já tão consumido. Os olhos e a alma mesmo assim
insistiam,a contravento
da razão.
- A travessia da tempestade de
areia valeria tantas recompensas quanto as brumas de Avalon? Uma Morgana o
aguardaria alhures?
As pernas bambas e exauridas
estremeceram como um arvoredo em vendaval.
- No deserto nem tudo que se vê
é miragem, disse a mulher, com voz rouca, completamente nua, sem esboçar qualquer timidez,
enquanto repousava os pés imersos nas águas cálidas do regato, sentada apoiando
as mãos sobre a areia branca do oásis.
Os cabelos longos e negros como
o mar do Cáucaso cobriam-lhe os ombros e os seios, tal como um véu que ora esconde, ora
revela. Entre as pernas, o sexo exposto, um
atentado ao pudor, de muito bom gosto.
x.x.x.x.x
x.x.x.x.x
O
beduíno tuaregue Iscariotes desfez-se
dos panos e turbantes que serviam-lhe de escudo na batalha contra a
fúria do
deserto. Enxugou a fronte úmida e áspera pela tempestade, ajoelhando-se
lentamente, como se fora rezar a prece obrigatória. Não reconhecera a
própria imagem que se projetava no espelho d´água. Algo lhe furtara a
memória, agora espalhada por ventos alísios na direção do Saara. Lavou-se, buscando a água com as mãos em concha,
tentando estornar a lucidez. A imagem da mulher seria apenas mais uma
alucinação dentro
de outra que já experimentava.
Ele cedeu à tentação e
mergulhou por inteiro na água, saciando o corpo que suplicava por um banho. A
transparência líquida lhe concedia ver que os pés dela permaneciam lá, submersos. Sentia inclusive seu cheiro na água.
No fundo do lago permaneceu atônito por alguns
segundos, quando veio à tona, já quase sem fôlego e tocou-a nos pés, sentindo
que eram reais. Emergiu buscando ar renovado e deparou-se com
a mulher sorrindo, sentada onde a avistara antes. Ele a segurava pelos pés, como
se não tivesse a intenção de mais soltá-los.
- Eu não falei? "No
deserto, nem
tudo que se vê é miragem", sussurrou ela novamente, então já sob o manto
escuro da noite, o qual lembrava um véu de odalisca, cheio de detalhes e
brilhos, com constelações caleidoscópicas cintilando sobre a imensidão
desértica.
Estrelas cadentes
brincavam como vagalumes no escuro, enquanto a lua parecendo magoada,
minguava por uma fresta de nuvem passageira.
- Quem és? perguntou ele, intrigado.
Ela não escondeu um certo ar de desdém e respondeu com outra interrogação:
- Não é demasiado estranho a pergunta partir justamente de alguém que perdeu tudo, da memória à própria identidade?
Ele sorriu em rendição a tanta astúcia da parte dela e implorou:
- Então me digas, por favor, afinal quem sou eu?
- Tu és o que foi traído e entregue para morrer.
A resposta veio em tom solene e o derrubou.
Ele engoliu as palavras, sentindo a boca seca e amarga.
- Te aprisionaram e
logo morrerás na cruz. Morrerás no lugar daquele que, ao raiar do
terceiro dia, reaparecerá blefando "ressurreição". Assim,o nome dele
será santo pelo teu sangue derramado e usurpado para a fundação de um
engodo chamado "religião"!
- Então, Judas é o meu nome, refletia o viajante em silêncio, tentando despertar da viagem psicotrópica.
- Sim, respondeu a mulher, como se ouvisse seus pensamentos.
- Agora permite-me saber quem sois? indagou ele, em tom de incerteza, resistindo aos desafios de sua nudez frontal, traçada em vales e montes de um relevo tentador.
- Eu sou aquela que
estava aqui desde o princípio. Já me deram muitos nomes.
Serpente,bacante,Salome ou Madalena.Outras vezes Morgana,bruxa,vaca
profana, feiticeira,luxúria, blasfêmia ou heresia. Sou a tentação que
evitam em vão.
Ele tinha as certezas
do solitário marinheiro mediterrâneo encantado por formosas sereias.
Ela o abraçou com as pernas, tentáculos irresistíveis, trazendo-o junto
de si, fazendo-o tocar e sentir seu sexo.
- Sou a própria
condição humana e, ao mesmo tempo, fã dela. Sou a mãe, a filha, a esposa
ou a amante, adúltera, virgem ou santa prostituta. Sou a que gera, mas
também aborta. Sou o maldito fruto do ventre proibido e impuro. Meu nome
é Lilith, mas poderia ser qualquer outro.
Ele sentia como se os dedos tocassem acordes de alaúde numa tenda saudita em noite de festa e os olhos dela brilhavam acendendo fogueiras.
Lilith contorcia-se em ritmo crescente, até que um gemido escapou-lhe dos lábios e o ventre se contraiu como um arauto para anunciar o
orgasmo que irrompia. A tênue areia branca vazava-lhe pelas mãos
fechadas em espasmo,esmagando o tempo, reduzido-o a um mero filtrado no
vidro da ampulheta.
x.x.x.x.x
Aos poucos a miragem se desfez. O despertar do fascinante e inesperado
encontro com Lilith o reduzia ao confinamento da prisão.
Mal acordou e a escuridão do calabouço foi ferida na face por esparsos e
agudos golpes de raios de luz. Um forte clarão tomou de assalto seus
olhos de pupilas dilatadas pela mandrágora. Diante de si um borrão de
silhueta confusa.
A
porta moveu-se e os guardas entraram para buscá-lo. Lembrou-se então do que a
mulher havia lhe revelado no deserto. O nazareno fugiria e o deixaria
entregue à morte em seu lugar.
Ergueu-se pelas mãos de terceiros. E saiu da cela apenas porque a força
alheia o conduzia apoiado pelos ombros. Um julgamento o aguardava.
x.x.x.x.x
Judas, ainda inebriado e bastante cansado daquela epopéia lilithiana,
fora levado a Pilatos, que o aguardava com grande expectativa.
- Quem és? perguntou Pilatos.
- Aquele que foi traído e entregue para morrer, disse o prisioneiro.
- Acaso te achas um mártir, um messias? inquiriu o governador da Judéia.
- Eu fui traído e entregue para morrer crucificado, repetia o Judas, relembrando as palavras de Lilith.
- Esquece isso, rapaz, eu sei que isso é idéia da tua mãe, aquela louca
que diz que tu és filho de um anjo e vieste como um messias.
Os sacerdotes observavam aquele diálogo e cochichavam.
- Em verdade, em verdade vos digo, eu andei pelo deserto e tive a
revelação de tudo o que acontecerá! recitava o Judas.
- Que ideia fixa. Para de falar essas bobagens por aí e eu te liberto, disse Pôncio Pilatos.
O Judas mal esperou o governador terminar a proposta e sentenciou novamente:
- Meu sangue será derramado para a nova aliança, fui traído e morrerei na cruz para a salvação da humanidade!
Os sacerdotes reagiam com olhares de reprovação, acompanhados pelo povo que se aglomerava com a curiosidade chula que lhe é contumaz.
Pilatos ainda buscou uma última saída, oferecer a libertação do suposto culpado.
Ora, havia o costume, por ocasião da festa dos ázimos,do governador libertar um preso, escolhendo o povo aquele que quisesse.E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás. Portanto, estando eles reunidos,trouxeram o ladrão e colocaram-no lado a lado com o Iscariotes.
Pôncio Pilatos voltou-se para o povo e perguntou-lhes:
- Qual quereis que vos solte?
Os amigos do carpinteiro de Nazaré estavam infiltrados em meio à turba e gritaram em antecipação, incitando-os:
- Barrabás, Barrabás, libertem Barrabás! o coro bradava aos berros, sob o sol da manhã e a liderança do exaltado João Evangelista, o qual andava com dificuldade, soterrado pelo disfarce de vestes femininas, dignas de uma religiosa recatada.
Barrabás foi libertado e saiu carregado nos braços do povo.
Os asseclas do carpinteiro corrreram a dar-lhe a boa nova, pois ele havia se escondido ao norte de Jerusalém, enquanto seus seguidores perambulavam disfarçados pela cidade, testemunhas e cúmplices do derradeiro destino do Iscariotes.
O cordeiro de deus estava salvo e o bode expiatório enviado ao sacrifício.Uma velha tradição monoteísta, assiduamente celebrada ao longo de toda história.
Pilatos perdeu a paciência e foi lavar as mãos.
Pilatos ainda buscou uma última saída, oferecer a libertação do suposto culpado.
Ora, havia o costume, por ocasião da festa dos ázimos,do governador libertar um preso, escolhendo o povo aquele que quisesse.E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás. Portanto, estando eles reunidos,trouxeram o ladrão e colocaram-no lado a lado com o Iscariotes.
Pôncio Pilatos voltou-se para o povo e perguntou-lhes:
- Qual quereis que vos solte?
Os amigos do carpinteiro de Nazaré estavam infiltrados em meio à turba e gritaram em antecipação, incitando-os:
- Barrabás, Barrabás, libertem Barrabás! o coro bradava aos berros, sob o sol da manhã e a liderança do exaltado João Evangelista, o qual andava com dificuldade, soterrado pelo disfarce de vestes femininas, dignas de uma religiosa recatada.
Barrabás foi libertado e saiu carregado nos braços do povo.
Os asseclas do carpinteiro corrreram a dar-lhe a boa nova, pois ele havia se escondido ao norte de Jerusalém, enquanto seus seguidores perambulavam disfarçados pela cidade, testemunhas e cúmplices do derradeiro destino do Iscariotes.
O cordeiro de deus estava salvo e o bode expiatório enviado ao sacrifício.Uma velha tradição monoteísta, assiduamente celebrada ao longo de toda história.
Pilatos perdeu a paciência e foi lavar as mãos.
x.x.x.x.x
Judas voltou ao calabouço. E tentou retornar à viagem pelo deserto, para um "último desejo" com Lilith. Encontrou apenas a realidade da tortura do cárcere, premonitora da execução que ele mesmo já era sabedor. Na última refeição, comeu o pão que seu inimigo amassou. Açoitaram-no com chibatas e escárnio, chamando-o de "rei dos judeus".
Subjugado ao céu vespertino, rajado de nebulosas e desbotada lua nova, Judas foi arrastado pelas ruas, convicto de sua identidade e ludibriado pelo próprio destino. O cortejo errante arrastava-se em procissão, perseguindo-o até o patíbulo.
No cume do Gólgota, abutres em disputa pelos prazeres da carne pútrida faziam dos ares um lago de aves de rapina. Um ballet zigue-zague sobre as carcaças humanas, espetadas no mostruário do açougue romano de estacas em cruz.
Os miasmas espirais incensavam ao vento, fazendo arder as narinas dos passantes a léguas dali.
Aquela trama tinha requintes de detalhes. A mãe do nazareno seguia-os às lágrimas, dissimulada, fazendo-se crédula de que ali desfilava o condenado fruto do seu ventre,cruelmente entregue ao calvário.
A corja de capangas do carpinteiro vigiava as cercanias e o bom andamento da execução.
- Eu fui traído e entregue para morrer crucificado, repetia o Iscariotes, exausto, já em vias do abandono do que lhe restara do estado de consciência.
Ao limiar do cadafalso, caiu de joelhos, sentindo o amaro acético dissabor do vinagre que ora lhe emprestavam aos lábios, em troco às súplicas por água. Ali, genuflexo e completamente resignado, viu o átimo da tempestade de areia subir das entranhas do chão,tal qual um vulcão extinto que se manifestasse em desagrado pelo incômodo desferido ao seu sono.As pedras sacudiram-se em solavanco e uma mulher deparou-se à sua frente, quase nua e com distinção de beleza levantina.
A memória começava a se reconstruir, como um filme rodado em reverso.
- Madalena? O que fazes aqui? disse ele, com a voz tracejada pela língua víscida em secura.
Judas voltou ao calabouço. E tentou retornar à viagem pelo deserto, para um "último desejo" com Lilith. Encontrou apenas a realidade da tortura do cárcere, premonitora da execução que ele mesmo já era sabedor. Na última refeição, comeu o pão que seu inimigo amassou. Açoitaram-no com chibatas e escárnio, chamando-o de "rei dos judeus".
Subjugado ao céu vespertino, rajado de nebulosas e desbotada lua nova, Judas foi arrastado pelas ruas, convicto de sua identidade e ludibriado pelo próprio destino. O cortejo errante arrastava-se em procissão, perseguindo-o até o patíbulo.
No cume do Gólgota, abutres em disputa pelos prazeres da carne pútrida faziam dos ares um lago de aves de rapina. Um ballet zigue-zague sobre as carcaças humanas, espetadas no mostruário do açougue romano de estacas em cruz.
Os miasmas espirais incensavam ao vento, fazendo arder as narinas dos passantes a léguas dali.
Aquela trama tinha requintes de detalhes. A mãe do nazareno seguia-os às lágrimas, dissimulada, fazendo-se crédula de que ali desfilava o condenado fruto do seu ventre,cruelmente entregue ao calvário.
A corja de capangas do carpinteiro vigiava as cercanias e o bom andamento da execução.
- Eu fui traído e entregue para morrer crucificado, repetia o Iscariotes, exausto, já em vias do abandono do que lhe restara do estado de consciência.
Ao limiar do cadafalso, caiu de joelhos, sentindo o amaro acético dissabor do vinagre que ora lhe emprestavam aos lábios, em troco às súplicas por água. Ali, genuflexo e completamente resignado, viu o átimo da tempestade de areia subir das entranhas do chão,tal qual um vulcão extinto que se manifestasse em desagrado pelo incômodo desferido ao seu sono.As pedras sacudiram-se em solavanco e uma mulher deparou-se à sua frente, quase nua e com distinção de beleza levantina.
A memória começava a se reconstruir, como um filme rodado em reverso.
- Madalena? O que fazes aqui? disse ele, com a voz tracejada pela língua víscida em secura.
- Judas, não é demasiado estranho a pergunta partir justamente de ti? O que fazes tu aqui? devolveu-lhe ela.
- "Eu fui traído e entregue para..." tentou explicar o Iscariotes com aquela mesma ladainha que trazia decor, como a liturgia de uma ordinária missa, todavia foi abruptamente interrompido.
- Judas, tu foste traído sim. Traído e ludibriado pelo nazareno e os capangas dele. Eles te envenenaram com mandrágora misturada a tua bebida e tramaram tudo isso. O resto foi metáfora da tua imaginação, uma longa viagem pelos teus arquétipos, explicou ela.
- Acaso és uma miragem de novo? implorou ele.
- Imagina, respondeu ela.
- Mas por que tudo isso? indagou-lhe o condenado Judas.
- Ele apostou alto e perdeu para ti. É só isso que sei. Deve ter apostado muitíssimo alto. Vai saber. Algo que agora talvez não queira te entregar. Ainda vou descobrir... Mas agora é hora de te tirar daqui!
x.x.x.x.x
- "Eu fui traído e entregue para..." tentou explicar o Iscariotes com aquela mesma ladainha que trazia decor, como a liturgia de uma ordinária missa, todavia foi abruptamente interrompido.
- Judas, tu foste traído sim. Traído e ludibriado pelo nazareno e os capangas dele. Eles te envenenaram com mandrágora misturada a tua bebida e tramaram tudo isso. O resto foi metáfora da tua imaginação, uma longa viagem pelos teus arquétipos, explicou ela.
- Acaso és uma miragem de novo? implorou ele.
- Imagina, respondeu ela.
- Mas por que tudo isso? indagou-lhe o condenado Judas.
- Ele apostou alto e perdeu para ti. É só isso que sei. Deve ter apostado muitíssimo alto. Vai saber. Algo que agora talvez não queira te entregar. Ainda vou descobrir... Mas agora é hora de te tirar daqui!
x.x.x.x.x
A Sorrateira e Derradeira Continuação
García
recusava-se a pronunciar o nome do carpinteiro, o que levou-o a
chamá-lo apenas pelo suposto e inusitado heterônimo. Uma forma de dar-lhe vida e
existência, pelo simples fato de falar dele.
-
"Judas Iscariotes"... resmungou entre os dentes o García, ainda incrédulo com as
revelações, enquanto cada
um recebia as cinco cartas da próxima rodada.
As
idéias se embaralhavam mais do que as cartas, sem tomar sentido, sem
"formar um jogo". Ele jogou alto para estar ali, naquela
cripta.Abandonou tudo por aquela viagem, por aquela entrevista. E agora,
Judas nunca existira.
A traição, idem.
Mas havia algum segredo naquela "santa" mesa.
Mas havia algum segredo naquela "santa" mesa.
Algo estranho. Algo que parecia mais estranho que o próprio "four" de ases que ele acabara de receber de mão.
O
anfitrião dera as cartas,olhando-o nos olhos, em tom de desafio. García
ergueu suas cartas, sem esboçar reação
alguma.
O olhar do nazareno o espreitava, aguardando qualquer deslize,
qualquer fenestra, um soslaio que denunciasse o teor das cartas que arrecadara.
Nada. Despido
de mímica e soterrado por um disfarce catatônico, García escondia-se da
tensão que os cercava como malha de arame farpado.
As fichas amontoavam-se ao centro da mesa.
O "four" de ases veio pronto. E bastou
ao FGL o artifício de trocar uma carta, apenas uma carta, o suficiente
para disfarçar a excelente condição.
O nazareno suspirou, reprisando o olhar já dispensado antes.
Todos entreolharam-se.
- Tô fora! disse Pedro, desanimado.
- Eu também, mestre, disse João.
- Quem vai dentre vós? perguntou o carpinteiro de Nazaré.
- Eu vou, mestre, respondeu Tomé.
- E tu, García? estenderam a indagação.
- Sim, respondeu o louco, monossilábico.
x.x.x.
Bartolomeu alisou a barba, trocando o copo por um punhado de fichas e apostou em silêncio.
Tomé voltou-se para ele e desafiou: - Pago pra ver! Duvido do que tens aí! Só acredito vendo!
Todos riram. Tomé tinha fama de incrédulo.
Bartolomeu resumiu-se a um riso discreto, comparado aos demais.
O nazareno estendeu a mão ao centro da
mesa e dobrou a aposta, multiplicando as fichas, como um "milagre ".
Agora todos o olhavam desconfiados, pois ele não havia trocado uma carta
sequer.
- Mestre, estás a blefar? perguntou o intrigado Bartolomeu, rompendo o divino silêncio.
O anfitrião guardava o piedoso olhar que o García tanto odiava.
- Em verdade, em verdade vos digo,trago o
sinal dos tempos... Estou com um "royal straight flush", de mão,
argumentou o nazareno, como se pregasse aos presentes.
García o fuzilava com o olhar, com o mesmo sincero desejo que sempre teve de fuzilá-lo realmente.
- Pago pra ver, "mestre"... disse o FGL,
enquanto arrastava todas as suas fichas de encontro ao monte das
apostas. Agora mostra o que escondes, mostra o teu "royal straight
flush" de mão, ó coitadinho de Nazaré! Quem sabe não fizeste o milagre
da multiplicação dos "ases"... Pois os quatro estão aqui na minha mão!
- Vamos, mestre, acaba com ele, disse João.
E o nazareno precisou ser amparado pelos
discípulos enquanto revelava o punhado de cartas. As mesmas estampavam
apenas um discreto par de nove.
A eloquência da mesa evaporou-se, transformada em afasia coletiva.Silêncio.
O García sentiu-se um soldado romano com
o destino do nazareno nas próprias mãos, tinha um four de ases,"quatro
cavaleiros do apocalipse" prestes a passar por
cima do rei deposto. O 'rei dos reis' estava nu, com um par de nove e um
blefe ridículo. Enfim, Nietzsche triunfava.
E deus estava morto.
x.x.x.
O blefe do carpinteiro era a metáfora
que faltava para a sequência daquele jogo. O messias blefava. E quantas
vezes mais teria blefado em seus sermões, sem que alguém "pagasse para
ver"?
Quantas vidas foram arrastadas como fichas de jogo por aquele dilúvio de blefes e intimidações chamado "religião"?
O nazareno não conseguia disfarçar a inquietação, García não escondia a satisfação por isso.
Um copo de vinho na mão e o punhado de cartas na outra, o FGL disparou:
- Um brinde ao nazareno!
- Tomai e bebei, sentenciou ironicamente o García.
x.x.x.
Nas paredes úmidas da cripta, as sombras projetadas pelas silhuetas pareciam
estáticas,uma pintura rupestre em cavernas paleolíticas. Uma pausa congelava a tela, como um defeito de
projeção.
Naquele instante era possível ouvir o ronco do velho Lênin no mausoléu, um
andar acima.
Alguém bateu à porta, o que roubou a atenção de todos. Mas não roubou o olhar
do García que buscava intimidar o anfitrião.
- Abra a porta, Pedro, disse o nazareno, cochichando com o guardador de
chaves.
- Sim, mestre, disse Pedro, atendendo-o prontamente.
A pequena porta que dava passagem às escadas se abriu.
Ao fundo, e distante da mesa, um vulto adentrou a cripta.
- Quem é, Pedro? perguntou o nazareno, em voz alta, mas com o olhar fixo e
mais preocupado com as cartas do jogo do García.
- Sou eu, respondeu Maria Madalena, aproximando-se da mesa, saindo da vasta penumbra,
completamente úmida pela chuva que não cessava há três dias e três
noites.
García soltou as cartas num súbito, surpreso pela visita inusitada e,
rendendo-se, deixou seu olhar a sós com ela.
Madalena, sempre quase nua, transparente pelo banho de chuva, aproximou-se do García,
alvejada por todos os olhares masculinos e sentou-se no colo dele.
- Já que não guardam lugar às mulheres nessa mesa, tenho que buscar meu
espaço, disse ela, enquanto suas roupas escorriam seu cheiro dissolvido na umidade, formando uma pequena poça debaixo da mesa.
O nazareno assustado era sentinela das cartas. O García, não mais.
O calor do abraço da noite escura da
Praça Vermelha soprava novamente, agora sobre seu colo.
- E então, estás com sorte no jogo? perguntou ela sorrindo.
García apenas pegou-a forte pela cintura e mostrou-lhe suas cartas.
Ambos riram.
x.x.x.
García segurava as cartas como uma arma prestes a disparar, quando a porta da cripta foi aberta.
Alguém que tinha as chaves acabara de
entrar. O intruso não precisara bater, sequer se anunciou. E ficou ali,
parado na penumbra, silente, junto à soleira, fora do alcance da visão
de todos.
- Esperávamos por mais alguém, Pedro?
interrogou o anfitrião àquele que tinha o controle das chaves da porta.
No entanto teve como réplica a negação de Pedro.
- Tens certeza? insistiu.
- Absoluta, mestre, confirmou o ex-pescador.
Um vento frio dava rasantes por debaixo da porta,fazendo
bailar as chamas das velas e os tênues restos de uma teia de aranha,
ancorada ao lustre.
Um calafrio tomou atalho pela espinha do
nazareno, fazendo-o suspirar e sentir-se intimidado pela presença do
intruso. Então, ele levantou-se e dirigiu a palavra ao canto onde o
estranho invasor guardava-se.
O visitante permanecia escorado à porta, porém quase impossível descrevê-lo. A escuridão não concedia.
- Qual é o teu nome? gritou o nazareno, com a voz trêmula.
-Meu nome é Legião, porque somos muitos,respondeu ele.
E o mesmo calafrio espalhou-se pela espinha de todos, sem fazer atalhos.
O estrangeiro riu e acendeu um cigarro que trazia no bolso do casaco.
- De onde vens? perguntou-lhe o nazareno.
E o estranho continuou a provocar.
E o estranho continuou a provocar.
- "De rodear a Terra e passear por ela".
- Estás a zombar de mim, estrangeiro, saia daqui, eu te ordeno! disse tomado pela ira o nazareno.
O intruso seguia absolutamente comovido nas trevas litorâneas da cripta.
- O que queres aqui? bradou o nazareno,possuído pelo quarto pecado capital.
- Calma, mestre! Vim apenas buscar
aquilo que me deves, não olvides da tua dívida comigo, disse o
estrangeiro ao irromper da escuridão e ser banhado pelo olhar de todos.
- Judas Iscariotes, exclamou João Evangelista.
- Judas Iscariotes, seguiram-lhe em brado os demais apóstolos.
O espanto e o pavor tomaram de assalto a
face do anfitrião, como se tivesse sido lançado em um desfiladeiro e
nem todo o exército de arcanjos seria capaz de ampará-lo.
Sentiu-se mais fraco que um andarilho em quarentena no deserto.
- Vocês não o mataram? gritou o nazareno, sentindo sobre sua cabeça o lancinante peso de uma coroa de espinhos.
- Sim, mestre, nós o entregamos em teu
lugar para o exército romano, explicava-se João,desesperadamente,
confirmado pelos demais. Mas Pedro negou. Disse que não sabia de nada.
- Nós o entregamos para ser crucificado no teu lugar! tentava justificar-se Bartolomeu.
- Pai, afasta de mim esse cálice,suplicou de joelhos o nazareno, com as mãos à cabeça,olhando para cima, lavado pela angústia.
-Eu não vou acreditar nem mais no que
vejo, repetia Tomé, desconsolado, sentando-se no chão sobre um pequeno
tapete marroquino.
O intruso provocou o anfitrião mais uma vez:
- Vai ver eu ressuscitei,não é? disparou Judas, seguido por uma rajada de gargalhadas do García Louco.
Madalena tomou a taça de vinho da mão do
FGL,com aquela cumplicidade que nasce tornando as palavras obsoletas.
- Ai, ai, viu... se soubessem da missa a
metade, suspirou Madalena, deixando a marca do seu lábio na taça do García.
- Não tenho dívidas contigo!
retrucou o nazareno.
- Dívida de jogo é sagrada, mestre! ironizou Judas.
- Afinal, o que deves a ele? intrometeu-se a
curiosa Maria Madalena.
x.x.x.
Apenas aqueles treze antigos
parceiros de pôquer sabiam o que tinha ocorrido naquela longínqua páscoa
judaica, em território palestino, há dois mil anos.
Na fatídica noite da última reunião, Judas sentara-se com a sorte em seu colo e estava ganhando todas as
rodadas. O carpinteiro não recebia bem a derrota e
insistia em apostar, mais e mais.
Volta e meia olhava para o céu e dizia
"pai, pai por que me abandonaste?", mas na próxima rodada, outra leva
perdida.
Arruinado, perdeu seus últimos
cobres,um saco de dez moedas, quando pelo entusiasmo da posse de uma sequência, apostou tudo
o que lhe restara. Judas surpreendeu-o com um
"four" de valetes!
Judas já guardava o saco de moedas
que ganhara honestamente,mas eis que o nazareno, entusiasmado pelo vinho, voltou à
mesa e disse ao Iscariotes "uma última rodada, valendo tudo!", dando um tapa
sobre a mesa.
Todos riram-se demoradamente, pois
ao nazareno não restara nem as sandálias, perdidas em um dos arriscados blefes.
Judas disse-lhe "e o que
apostarias, mestre, por acaso o teu trono?"
O nazareno escorava-se nos ombros de
Pedro e Bartolomeu.
Após alguns segundos, retomou o fôlego e
respondeu "aposto tudo que tenho: Madalena." "Fechado",
concordou Judas, sem hesitar.
x.x.x.
Até o mais ignorante dos beduínos ou
desavisado dos pastores das colinas do Golan sabia que Madalena não
pertencia ao carpinteiro. Aliás, não pertencia a ninguém. Maria Madalena era
Lilith em pessoa. Não seria nunca propriedade de homem algum.
Se perdesse a aposta, o arruinado
nativo de Belém não teria como honrá-la.O Iscariotes sabia disso, mesmo assim
topou arriscar.
A mesa encheu-se novamente e todos
retomaram seus assentos. Uma nova rodada de vinho foi servida, agora por conta
de Judas.
João embaralhou e deu as cartas. O
nazareno as benzeu com um sinal da cruz, antes de pegá-las, cerrou
os olhos e abriu-as lentamente diante de si, escondendo a face.
- E então, mestre? arguiu o
Iscariotes.
O croupier João Evangelista os
observava, assessorado pelos demais.
- Troco três, disse o anfitrião,
entregando as cartas.
- Nada, disse o Judas, lacônico,
erguendo a mão esquerda em negativa.
Na mesa, postas as fichas do
Iscariotes, formando um monte quase tão alto quanto o Sinai. A aposta do anfitrião
não estava ali. Devia estar a rodear e passear pela terra.
O croupier trapaceara a favor do
mestre, aproveitando-se do movimento da troca e passar de cartas. Uma trinca de
"reis magos" foi enviada de presente ao nazareno, como
uma benção divina.
Judas não se importava, apreciava a
cena, o desespero e as trapaças do perdedor.
- Então, mestre? manifestou-se João.
O nazareno soluçou e baixou seu
jogo, sem cerimônias.
- Santíssima Trindade de reis!
gritou Pedro, em tom de euforia, saudado por palmas.
O Judas fechou os olhos e baixou a
cabeça.
- E tu? interrogava Bartolomeu o
oponente, transbordando em ansiedade e vinho.
O Iscariotes baixou três cartas,
segurando outras duas.
- Trinca de seis! gritaram todos,
pulando de alegria e beijando o mestre, supostamente vencedor.
Todos o beijaram, menos o adversário,
que seguia sentado com as duas cartas restantes na mão.
- Aqui há sabedoria, disse o Judas apontando a trinca de seis.
E aquele que sabe, calcule, porque o número do homem é o número seiscentos e sessenta
e seis...
E prosseguiu.
- Sabem que a minha trinca de nada
serviria sem este par de damas? E baixou uma dama de copa e uma dama de espada.
A última, a de espada, é a Salome
seduzindo e decapitando o teu Batista; já a primeira, de copa, te consome em
dúvidas, devastando e derretendo o teu coração, Madalena! A casa está cheia... É um
"full house", meu mestre trapaceiro.
As cartas e as palavras açoitavam o nazareno, impondo-lhe mais amarguras que o
vinagre ofertado como água a um sendento.
Só lhe restavam lágrimas no monte das oliveiras.
Só lhe restavam lágrimas no monte das oliveiras.
Enquanto falava o vencedor Iscariotes, revelando e discorrendo sobre o
poder de suas cartas, João Evangelista reincidiu em ardiloso subterfúgio
de trapaça, substituindo a taça de vinho de Judas por outra. A nova com
conteúdo especial, sementes de mandrágora.
Lucas, o sírio, era médico e profundo conhecedor dessa planta e seus efeitos narcóticos.
O Iscariotes bebeu
uma generosa dose da bebida batizada, caindo ao solo inconsciente, como
se chegasse à exaustão. Todos correram para vê-lo de perto, desmoronado
ao pé da mesa. O saco de dinheiro de Judas foi roubado pelo nazareno.
- Será que Ele morreu? perguntou João.
- Creio que sim, a dose era muita forte, respondeu o apóstolo médico.
- Tomara,mas vamos esperar... intrometeu-se o desconfiado Tomé.
x.x.x.
Dormiram ali, ao redor da mesa. O
Iscariotes permanecia inerte, sendo velado pelos amigos traidores.
Acordaram-se sob os gritos dos soldados romanos.
Acordaram-se sob os gritos dos soldados romanos.
Havia uma denúncia.
Todos ergueram-se, menos o nazareno, que
já não estava lá e o inebriado Judas que seguia perdido no distante
mundo de Hipnos e Morfeu.
- Recebemos denúncia de que há alguém
aqui que se diz "rei" e quer ameaçar o imperador de Roma, pregando
rebeliões e prometendo o céu, bradou o centurião.
- Deve haver algum engano, senhor, aqui nos reunimos apenas para jogar, disse Pedro.
- E este aí, por que não levantou? arguiu a escolta, apontando para o Iscariotes.
- Ele é o "líder", ainda não acordou porque bebeu muito vinho, explicou João.
Os guardas vasculharam tudo e não acharam pistas, nem dinheiro de apostas, nem qualquer outra evidência de jogo por ali.
- Prendam o líder subversivo! ordenou aquele que os comandava.
- Prendam o líder subversivo! ordenou aquele que os comandava.
- Você estava junto? perguntaram a Pedro.
Ele negou.
Judas foi então o único levado às masmorras,inconsciente,sob o efeito da mandrágora.
x.x.x.x.x
diz tudo...
Não cessará o fogo.
Não terão sossego.
(*2005 + 2012)
O outro blog www.barqueirocaronte.blogspot.com (A Divina Comédia, por F. García Louco) foi a trincheira por muito tempo, sete longos anos de combate poético e libertário.
Agora nasce o filho bastardo, o herdeiro que seguirá o legado de artilharia pesada contra a bunda-alvo da hipocrisia católica, apostólica e retórica romana, assim como a todas as falsidades que nos infestam!
Do mesmo criador de "A DIVINA COMÉDIA POR F.GARCÍA LOUCO"
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