García Louco, Maria Madalena e o Iscariotes foram convidados de honra para a composição da banca de jurados.
Ela ao centro, García e o Judas de cada lado, assim decidiriam o destino do carpinteiro e sua quadrilha.
García ouvia atento as palavras do mestre e fazia anotações sem parar. Madalena aguardava o intervalo da sessão para falar com o Iscariotes sobre a tal aposta entre ele e o carpinteiro.
Judas registrava em papel sobre uma prancheta, com nanquim e água, o retrato da cena que assistia: o nazareno em juízo, como réu; o diabo, juiz. Ninguém iria acreditar...
João Evangelista ficou de pé e gritou com a revolta e indignação que lhe eram contumazes.
- Ó infame! Até agora não sabemos de que nos acusam! Isso é um absurdo.
Os demais tentaram juntar-se ao protesto, mas foram fustigados pela guarda, que os reconduziu ao silêncio.
- Calem-se, não vos recomendo que colham mais infortúnios, admoestou-os o juiz. E prosseguiu.
- Parece-me uma ironia, nazareno, que tu e tua trupe sintam-se tão injustiçados, como o senhor Joseph K. em "O Processo" de Franz Kafka; agindo assim como pobres inocentes, julgados à surreal revelia do conhecimento do mérito da acusação.
Ora, ora, "coitadinho de Nazaré", vós sabeis muito bem porque estão aí assentados!
Transformaram a humanidade em uma multidão de "Josephs K".
A vida sobre a Terra foi reduzida a um eterno processo, à espera de um "julgamento final"... Uma legião de réus zumbis, mortos-vivos, desesperados , arrastando as correntes da culpa e do medo do "fogo eterno". Pecado, pecado, pecado! A cada palavra, a cada gesto, pensamento ou sonho, uma autoestrada para o inferno. A isto reduziste o homem: "do pó vieste, ao pó voltarás", uma grão de poeira de mea culpa, mea maxima culpa.
Então veio a vez e a ronda do nazareno, o qual levantou-se e bradou contra Satã.
- Ouça, decaído, se há aqui um julgamento,podeis apontar onde está a nossa defesa?
Os guardas avançaram sobre ele com muita força e nenhuma misericórdia, mas o juiz ordenou-lhes que parassem.
- Tragam-no a mim! disse Satã, investido da toga de supremo mandante daquela sessão.
Os guardas arrastaram-no às proximidades da mesa do juiz, trôpego e desajeitado.
E Satã disparou-lhe como um tiro à queima roupa.
- Defesa? Agora lembras de clamar por "defesa"? Alguém aqui teria direito a advogado no tal "julgamento" do fim dos tempos? Alguém poderia alegar atenuantes, legítima defesa, talvez? Haveria recurso a uma condenação eterna?
E continuou a rajada.
- Eu tive direito a defesa de tudo o que me acusaram? Em algum lugar ouviu-se que eu clamava por um "advogado do diabo"? Quem ouviu meus depoimentos? Eu assinei alguma confissão?
Não, pois isso nunca interessou à vossa promotoria.
O roteiro do maniqueísmo já estava pronto para o teatro de fantoches, um folhetim da luta entre o "bem" e o"mal".
O nazareno não encontrou palavras e o silêncio doía-lhe como a única réplica.
- Levem-no de volta ao lugar dele, ordenou Lúcifer aos seguranças.
O nazareno regressou ao assento e foi preciso ampará-lo, pois pesava-lhe o cansaço e a verdade sobre os ombros.
O juiz decretou então o intervalo da sessão. Os réus deveriam permanecer em seus lugares.
x.x.x.x.x.
Ela ao centro, García e o Judas de cada lado, assim decidiriam o destino do carpinteiro e sua quadrilha.
García ouvia atento as palavras do mestre e fazia anotações sem parar. Madalena aguardava o intervalo da sessão para falar com o Iscariotes sobre a tal aposta entre ele e o carpinteiro.
Judas registrava em papel sobre uma prancheta, com nanquim e água, o retrato da cena que assistia: o nazareno em juízo, como réu; o diabo, juiz. Ninguém iria acreditar...
João Evangelista ficou de pé e gritou com a revolta e indignação que lhe eram contumazes.
- Ó infame! Até agora não sabemos de que nos acusam! Isso é um absurdo.
Os demais tentaram juntar-se ao protesto, mas foram fustigados pela guarda, que os reconduziu ao silêncio.
- Calem-se, não vos recomendo que colham mais infortúnios, admoestou-os o juiz. E prosseguiu.
- Parece-me uma ironia, nazareno, que tu e tua trupe sintam-se tão injustiçados, como o senhor Joseph K. em "O Processo" de Franz Kafka; agindo assim como pobres inocentes, julgados à surreal revelia do conhecimento do mérito da acusação.
Ora, ora, "coitadinho de Nazaré", vós sabeis muito bem porque estão aí assentados!
Transformaram a humanidade em uma multidão de "Josephs K".
A vida sobre a Terra foi reduzida a um eterno processo, à espera de um "julgamento final"... Uma legião de réus zumbis, mortos-vivos, desesperados , arrastando as correntes da culpa e do medo do "fogo eterno". Pecado, pecado, pecado! A cada palavra, a cada gesto, pensamento ou sonho, uma autoestrada para o inferno. A isto reduziste o homem: "do pó vieste, ao pó voltarás", uma grão de poeira de mea culpa, mea maxima culpa.
Então veio a vez e a ronda do nazareno, o qual levantou-se e bradou contra Satã.
- Ouça, decaído, se há aqui um julgamento,podeis apontar onde está a nossa defesa?
Os guardas avançaram sobre ele com muita força e nenhuma misericórdia, mas o juiz ordenou-lhes que parassem.
- Tragam-no a mim! disse Satã, investido da toga de supremo mandante daquela sessão.
Os guardas arrastaram-no às proximidades da mesa do juiz, trôpego e desajeitado.
E Satã disparou-lhe como um tiro à queima roupa.
- Defesa? Agora lembras de clamar por "defesa"? Alguém aqui teria direito a advogado no tal "julgamento" do fim dos tempos? Alguém poderia alegar atenuantes, legítima defesa, talvez? Haveria recurso a uma condenação eterna?
E continuou a rajada.
- Eu tive direito a defesa de tudo o que me acusaram? Em algum lugar ouviu-se que eu clamava por um "advogado do diabo"? Quem ouviu meus depoimentos? Eu assinei alguma confissão?
Não, pois isso nunca interessou à vossa promotoria.
O roteiro do maniqueísmo já estava pronto para o teatro de fantoches, um folhetim da luta entre o "bem" e o"mal".
O nazareno não encontrou palavras e o silêncio doía-lhe como a única réplica.
- Levem-no de volta ao lugar dele, ordenou Lúcifer aos seguranças.
O nazareno regressou ao assento e foi preciso ampará-lo, pois pesava-lhe o cansaço e a verdade sobre os ombros.
O juiz decretou então o intervalo da sessão. Os réus deveriam permanecer em seus lugares.
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