terça-feira, 30 de outubro de 2012

F. García Louco Entrevista - O julgamento

García Louco, Maria Madalena e o Iscariotes foram convidados de honra para a composição da banca de jurados.
Ela ao centro, García e o Judas de cada lado, assim decidiriam o destino do carpinteiro e sua quadrilha. 

García ouvia atento as palavras do mestre e fazia anotações sem parar. Madalena aguardava o intervalo da sessão para falar com o Iscariotes sobre a tal aposta entre ele e o carpinteiro.

Judas registrava em papel sobre uma prancheta, com nanquim e água, o retrato da cena que assistia: o nazareno em juízo, como réu; o diabo, juiz. Ninguém iria acreditar...

João Evangelista ficou de pé e gritou com a revolta e indignação que lhe eram contumazes.

- Ó infame! Até agora não sabemos de que nos acusam! Isso é um absurdo.

Os demais tentaram juntar-se ao protesto, mas foram fustigados pela guarda, que os reconduziu ao silêncio.

- Calem-se, não vos recomendo que colham mais infortúnios, admoestou-os o juiz. E prosseguiu.

- Parece-me uma ironia, nazareno, que tu e tua trupe sintam-se tão injustiçados, como o senhor Joseph K. em "O Processo" de Franz Kafka; agindo assim como pobres inocentes, julgados à surreal revelia do conhecimento do mérito da acusação. 
Ora, ora, "coitadinho de Nazaré", vós sabeis muito bem porque estão aí assentados!
Transformaram a humanidade em uma multidão de "Josephs K". 
A vida sobre a Terra foi reduzida a um eterno processo, à espera de um "julgamento final"... Uma legião de réus zumbis, mortos-vivos, desesperados , arrastando as correntes da culpa e do medo do "fogo eterno". Pecado, pecado, pecado! A cada palavra, a cada gesto, pensamento ou sonho, uma autoestrada para o inferno. A isto reduziste o homem: "do pó vieste, ao pó voltarás", uma grão de poeira de mea culpa, mea maxima culpa.

Então veio a vez e a ronda do nazareno, o qual levantou-se e bradou contra Satã.

- Ouça, decaído, se há aqui um julgamento,podeis apontar onde está a nossa defesa?

Os guardas avançaram sobre ele com muita força e nenhuma misericórdia, mas o juiz ordenou-lhes que parassem. 

- Tragam-no a mim! disse Satã, investido da toga de supremo mandante daquela sessão.

Os guardas arrastaram-no às proximidades da mesa do juiz, trôpego e desajeitado.

E Satã disparou-lhe como um tiro à queima roupa.

- Defesa? Agora lembras de clamar por "defesa"? Alguém aqui teria direito a advogado no tal "julgamento" do fim dos tempos? Alguém poderia alegar atenuantes, legítima defesa, talvez? Haveria recurso a uma condenação eterna? 

E continuou a rajada.

- Eu tive direito a defesa de tudo o que me acusaram? Em algum lugar ouviu-se que eu clamava por um "advogado do diabo"? Quem ouviu meus depoimentos? Eu assinei alguma confissão?
Não, pois isso nunca interessou à vossa promotoria.
O roteiro do maniqueísmo já estava pronto para o teatro de fantoches, um folhetim da luta entre o "bem" e o"mal". 

O nazareno não encontrou palavras e o silêncio doía-lhe como a única réplica.

- Levem-no de volta ao lugar dele, ordenou Lúcifer aos seguranças.

O nazareno regressou ao assento e foi preciso ampará-lo, pois pesava-lhe o cansaço e a verdade sobre os ombros.

O juiz decretou então o intervalo da sessão. Os réus deveriam permanecer em seus lugares.

x.x.x.x.x.

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