Madalena esperava pelo Judas na porta do banheiro. E ele sabia.
Ela bateu à porta. Ele lavava o rosto com a água fria e enferrujada da pia e mirava-se no espelho quebrado, querendo um pouco de coragem para encará-la.
- Judas, eu sei que você está aí! Estou esperando a nossa conversa, disse a voz feminina do lado de fora.
Ele não respondeu, esperava que ela talvez desistisse.
Madalena insistiu:
- Judas, o intervalo está acabando, em seguida teremos de voltar.
Preciso saber o que vocês apostaram naquele maldito jogo.
Ele guardou-se no silêncio, quem sabe ela pensaria que não houvesse ninguém ali.A porta se abriu e Madalena o achou diante do espelho, congelado como os canais de Amsterdam no inverno.
Ela se aproximou e fechou a torneira que jorrava água e um forte cheiro de ferrugem do velho encanamento. Olhou-o através do espelho dividido em fragmentos de rachadura.
- "Judas, à sua imagem e semelhança", disse ela com aquele leve riso irônico no canto dos lábios.
- Stella Matutina... murmurou ele.
- Tu e os teus espelhos... Agora o que ele te manda fazer? provocou-o.
Nem o vento frio, a porta entreaberta, o cheiro de ferrugem da água, ou qualquer efeito colateral poderiam interceder.
O beijo que começara nas bordas do lavabo, só terminou quando gozaram juntos, abraçados no chão úmido. No peito dele, as marcas das jóias que ela usava nos mamilos, unidos por uma pequena corrente.
- Judas, eu só queria que tu soubesse que foi porque eu quis e não por essa aposta ridícula. Lugar de mulher é onde ela quiser!
Ele ficou quieto, seminu, olhando-a retocar o batom no espelho quebrado.
- Agora, levanta-te e anda, porque eu quero ver o destino daquele canalha, completou ela já saindo pela porta semiaberta.
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