terça-feira, 30 de outubro de 2012

F. García Louco Entrevista - A vingança



- Todos de pé! disse um alto funcionário do tribunal.
-  Dá-se por reaberta a sessão deste tribunal, sentem-se todos, comandou o vulto diabólico.

García ainda terminava de tecer alguns registros sobre a passagem anterior da sessão em seu caderno de viagem, quando sentiu a mão de Madalena a tomar-lhe a caneta e o bloco das mãos.

- Aquele que está sentado lá, junto ao Conselho de Sentença, também é um dos nossos. Por que não o prendem e julgam? protestou o nazareno, olhando em direção ao Iscariotes e apontando-o com as mãos algemadas.

A platéia vaiou-o em uníssono, entre gritos e assovios, bradando o nome de Judas repetidamente.

- Judas, Judas, Judas, Judas...


- Silêncio! gritou o árbitro, golpeando a mesa com seu martelo. Judas Iscariotes é meu filho. Eu o coloquei junto ao teu bando para te vigiar. Ele não é um dos teus. Ademais, carrega a injusta fama de ter te traído e entregue à morte, quando, em verdade fugiste, cafajeste... Judas foi quase crucificado, não fosse Maria Madalena.


A pronúncia do nome de Madalena também causara um certo alvoroço entre os espectadores. Assovios e palmas, brados de admiradores não tão secretos da uma musa pecadora.


O nazareno começava a buscar suas últimas armas para fugir à condenação. 

- O Iscariotes não me traiu, mas fez pior, traiu Maria Madalena, sua salvadora. Ele a apostou no pôquer! delatou o carpinteiro.

- Traidor, traidor, gritavam os apóstolos do nazareno!


O juiz interrompeu assim a baderna: 

- Então, bando de trapaceiros, nada mais próprio neste caso que tenhamos uma atitude contrária a dos miseráveis cristãos: Façamos ouvir com gosto a  voz das mulheres. Escutemos o que Maria Madalena tem a nos dizer sobre tudo isso.

- Que mulher não se sentiria lisonjeada em uma disputa tão épica? É claro que muitas me invejam. É claro que muitas me difamam.
Quanto ao Judas, garanto-vos, é melhor jogador do que amante.
Pude me certificar há pouco no banheiro do tribunal. Os beijos dele são famosos, mas em outro contexto. 

A platéia foi ao delírio. Risos e muitas vaias ecoaram pelo grande tribunal, como nas grandes festas pagãs dos bons tempos.

O juiz não interferiu, afinal aquele era o frêmito espontâneo do inferno.

Madalena exultava-se com o sabor da vingança. O García perdeu-se de  sua caneta e já não conseguia escrever mais nada, enquanto o Judas tinha a face corada de intenso rubro, tal qual uma pintura de tinta zarcão. Pagava o preço alto de apostar Madalena como se a possuísse.

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