sábado, 15 de dezembro de 2012

Repugnância





Ali Agca

o que causa mais
repugnância
nesse turco:
a pontaria
ou o pedido

de perdão?

 (F. G. Louco - 1995)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

F. García Louco Entrevista - Tomai e comei

O corpo acéfalo e largado ao chão fazia-se sitiado por uma crescente laguna de sangue, a qual brotava em jatos intermitentes, em jorro agônico pelas últimas batidas de um coração assustado e escondido no porão do peito.
García acolheu a bandeja das mãos de Salome, segurou-a o mais firme possível com seus dedos merejados de suor e mergulhou nas memórias de tudo o que se passara até então. 
A jornada em busca das entrevistas com os execrados no "livro das mentiras", Caim, Salome e o Iscariotes. A inesperada e sedutora Madalena. O derradeiro encontro com o nazareno e seus asseclas trapaceiros, até a sua condenação no juízo final.
García olhara o abismo incessantemente, mas nenhuma resposta surgira no precipício. Olhou-se no espelho do desfiladeiro e o fosso apenas sorriu-lhe devolvendo catadupas de dúvidas e incertezas.
Ele saíra em busca dos "inimigos de deus", mas nunca imaginara dispor da cabeça do próprio "deus" em suas mãos. Sequer lhe ocorrera que o tal realmente existia. Mas se "deus" estava ali, então haveria de fazer o que seus seguidores fazem? O ritual canibalista e sádico da "última e santa ceia". Assim, ergueu a bandeja no limite de seus braços, exultando-se, como se erguesse um troféu. O sangue escoava sobre sua testa, transbordando a bandeja.
- Tomai e comei, disse o FGL, antes de deixar escorrer aquele sangue em sua boca. E com as mãos e a face ensanguentadas, repartiu-o como se servisse a eucaristia.
A boca borrada de sangue sussurou no ouvido de Madalena.
- Pra que calcinhas, cinta-liga e sex-shop, quando se tem, em plena missa, o nazareno seminu, chicoteado, crucificado e distribuído em pedacinhos? E tudo isso regado a vinho! Marquês de Sade é  pura inocência...
Ela mal esperou o fim da frase e agarrou-se ao lábios dele, com os dentes, a língua, o sexo, a alma e beijou sentindo o gosto daquele "vinho" nos lábios dele.
- "Corpus Christi".  Hóstia para os hostis! Saudava o príncipe das trevas a cada pedacinho do corpo do nazareno entregue aos infiéis.
Cerberus, o cão  de três cabeças, guardião das portas do inferno,
aguardava deitado ao lado do dono, esperando que lhe convidassem para o banquete.
O FGL segurava a cabeça do nazareno pelos cabelos, como se ostentasse um lampião. Aproveitou-se do púlpito e da atenção de todos naquele instante e provocou:
- Querem tanto saber por que os cães entram na igreja? disse o FGL. Porque da tal comilança do corpo de Cristo, eles tem esperança que lhes guardem ao menos os ossos...