terça-feira, 30 de outubro de 2012

F. García Louco Entrevista - O duelo

Encurralado, o carpinteiro aceitou o desafio da espada em busca da absolvição. Os guardas retiraram-lhe as algemas e o conduziram ao espaço livre diante da mesa do juiz, um improvisado campo de batalha que marcaria seu destino.

A indumentária da esgrima foi-lhe entregue. Os apóstolos ajudaram-no a equipar-se.  Ele estava gelado e suas têmporas exalavam sangue e angústia.

Pela porta principal, sob calorosos aplausos e a escolta da guarda de honra, adentrou o adversário do nazareno, como representante do chefe supremo dos anjos decaídos. Ele desfilou pelo salão nobre com seu  traje de indumentária negra, dos pés à cabeça, em contraste ao cândido uniforme de combate do inimigo.

Nazareno e seu adversário, frente a frente, em armas, com os sabres em riste, assoberbados pela escuridão que negava acesso à  imagem de seu rosto e identidade, através da máscara metálica esgrimista.

- À morte! bradou Lúcifer, erguendo o punho cerrado.

- À morte! replicaram todos da platéia, deflagrando o combate.


O aço afiado dos sabres ressoava pelos golpes e contragolpes desferidos. Em sobressaltos, bastante assustado, o carpinteiro defendia-se, esperando uma chance de contrataque.

 
Assim duelaram, até que um deslize do guerreiro negro permitiu que o nazareno o ferisse no ombro esquerdo. O ferido caiu e o nazareno avançou com a ponta do arma sobre seu peito, buscando o ferimento fatal.

Com incrível agilidade, o guerreiro negro defendeu-se, projetando um chute por entre as pernas do carpinteiro, levando-o ao solo, nocauteado pela lancinante dor genital. 

O adversário ergueu-se e mirou o nazareno caído.

A platéia inflamou-se em júbilo e clamava pelo fim.

- Morte, morte, morte!

Os apóstolos tentavam em vão as súplicas.

- Misericórdia, misericórdia!

Assim, o algoz ergueu o sabre e desferiu-lhe o golpe de uma só vez, enquanto a lâmina afiada arrancava-lhe a cabeça do restante do corpo.
 
O chão lavou-se de sangue e lambeu os pés do deicida.
O nazareno morria como um "deus" deve morrer. 

O misterioso combatente abaixou-se lentamente e juntou o troféu ensanguentado em uma bandeja de prata.

- Aqui está, é tua!

As mãos seguravam a bandeja sem hesitação ou tremores sequer. Mãos convictas e saciadas, tal qual uma fera com a presa entre os dentes. 


A cabeça do "messias" permanecia estendida em oferta. 
Os olhos inanimados e pálidos assistiam todo o seu sangue escoar-se pelas grandes veias  do pescoço degolado.

A fisionomia do viajante García transfigurou-se, como uma tela de Goya, um sobejo da mímica facial em êxtase.

As mãos do FGL tomaram para si a bandeja com o presente cobiçado. O estranho então despiu-se da máscara da indumentária de combate, abandonando-a ao chão.

Os longos cabelos negros egípicios caíram-lhe sobre os ombros, deslizando e lambendo seu corpo até o dorso. Os olhos brotaram nas brumas, raros e escuros, como a lotus negra velada pelo bálsamo do orvalho da madrugada.

- Salome! disse o García com tamanho espanto ao descobrir a identidade da guerreira esgrimista.


A voz tracejada e difícil escapou-lhe da boca como um réptil indeciso sobre a superfície de um pântano.


- Tu já devias saber, García! Ela sempre faz os homens perderem a cabeça, disse Madalena.


x.x.x.x.x. 

 



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