terça-feira, 12 de junho de 2012

F.G. Louco Entrevista - Stella Matutina

Judas e Madalena logo fugiram da cidade. Clandestinos na Galiléia, precisavam de um esconderijo seguro nos arrabaldes das colinas palestinas. Além de tentar descobrir onde estava o infame nazareno. Ela parecia curiosa para saber do prêmio da tal aposta que o carpinteiro perdera, enquanto ele não via a hora de dar o troco, com a ira digna dos castigos do "antigo testamento".
Os apóstolos também deixaram Jerusalém e seguiram para o norte, sob o disfarce de mercadores. Lá pediram pouso em um distinto lupanar. Beberam e jogaram pôquer. E já alta madrugada, após longos debates regados a "arak" e belas companhias,decidiram unânimes que nada revelariam ao seu mestre. Antes, confirmariam o sacrifício e morte do Judas na cruz, conforme o plano.
O breu da noite já ameaçava deformar-se pela incipiente claridade que lhe borrava a moldura, mas o sábado das aleluias nasceria escondido num eclipse total,uma sobreposição de luzes e vultos planetários. Metáforas, quiçá, das tramas e falácias que transcorriam.E quem diria, os corpos celestes prestavam-se a contar parábolas e mirábolas, com licenças poéticas astronômicas. 
Destarte, naquela manhã que se aguardava, o arrebol parou e ficou ali, contrito e submerso nas entrelinhas, espiando o fulgor da estrela da manhã. A "stella matutina" pairava no ar, intersecta e tangente à madrugada.
Um incauto que agora despertasse, ou mesmo o noctâmbulo que tivesse o céu antes de abraçar o sono, teria, por espanto,um sol interrompido,excitado como um vouyer no bordel daquela estrela messalina, sedutora, nua e impávida no horizonte.
Nem todas as crendices, tampouco os telescópios e teorias astrofísicas entenderiam o significado daquele eclipse e de todos os demais que se repetem. Não seriam meros fenômenos naturais ou assombros de malogros, mas uma elegia declamada pelas testemunhas celestes da fraude, um protesto silencioso contra o esconderijo da verdade.

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Judas ainda não desfrutara de uma noite de sono desde que fora entregue aos delírios da mandrágora e os suplícios da prisão.
Havia peregrinado por tantos lugares, reais e imaginários.
Não seria difícil dormir como uma pedra ao cair sobre o catre improvisado com forro de peles de cabra.
Ele sequer provou a pequena ceia que Madalena lhe preparara com pão,cereais, tâmaras e água. A fogueira ao lado da tenda ainda dançava lenta e silenciosa ao vento.
O refúgio não ostentava conforto,mas seria seguro e improvável ao pensar dos inimigos, que ora os perseguiam como Orion e sua matilha em eterna caçada.
Ali passariam aquela noite,às margens da abissal salinidade e dos tesouros do maldito mar Morto, inalando as cinzas devassas de Sodoma e Gomorra soterradas no lodo de salitre.
Madalena adorava o mar Morto como "exílio". Lá passava muitos dos seus dias, banhando-se nua, flutuando na densidade salina. Imaginava a chuva de fogo e enxofre pingando do céu esverdeado para o castigo dos dissolutos. Sentia-se assim uma estátua de sal desafiando os mandamentos divinos.
A madrugada do vale do Jordão guardava um vento gelado que rouba o calor do dia pretérito, jogando-o no desfiladeiro.
Madalena entrou na tenda, afastando o esvoaçante tecido da cobertura, fez do seu véu um improviso de agasalho e só então deitou-se ao lado dele. Judas não a percebeu.
Ela tocou-lhe os ombros e encaixou-se ao corpo dele, encolhendo as pernas, assim se completavam como as formas isômeras  de uma mesma substância. Ele estava quente, atacado pela febre. Um tremor fino e insistente percorria-lhe o corpo.
O Iscariotes seguia viagem em seus sonhos. Agora percorria um longo jardim de labirintos, com corredores de cercas vivas.
A cada passo exasperado, prosseguia em busca da saída, percebendo que o chão atrás de si extinguia-se no vácuo de um abismo.
Não havia concessões para tentativa e erro. O rumo tomado seria definitivo, ainda que fosse um beco sem saída.
Após perambular confuso, deparou-se com uma parede opaca, que mais lhe parecia um muro. As esperanças de uma estimada solução para aquele desafio labiríntico esgotavam-se.
Encurralado e sem escolha, resolveu seguir em frente.
À medida que se aproximava da sólida parede de tijolos úmidos, ela esmaecia feito a neblina das margens de um rio.
Um enorme espelho assumiu seu lugar e as imagens reflexas começaram a se formar em vitral, parte a parte, compondo as peças de um quebra-cabeças.
O Iscariotes parou diante daquela imagem especular que enfrentava, retocada de detalhes em réplica perfeita, à exceção de si mesmo, que não possuía imagem, nem semelhança, ausente do reflexo da tela.
Decidido a decifrar mais criptograma,retomou o fôlego e partiu em rota de colisão pela moldura que a falha da sua imagem imprimia. Já do outro lado da tela vítrea, no avesso da antimatéria que guardam os espelhos, extasiado e perplexo, viu a si mesmo,observando-se com mútuo olhar fixo.
O labirinto desaparecera e, em seu lugar, encontrava-se um tabuleiro de xadrez. Um tabuleiro incomum,montado sobre um campo gramado, com peças vivas, encenado pelos típicos personagens do jogo bélico, cavalos, torres e a fileira de peões.Um fantástico cenário de alegorias,digno das grandes tragédias do teatro romano.
O Judas Iscariotes enantiomorfo permanecia de pé, exatamente na mesma posição que aquele oriundo do intrincado labirinto insolúvel.
Ele olhou para trás, enquanto seu duplo o imitava, sempre instantâneo, como um artista mambembe.
O labirinto e a passagem através do espelho não existiam mais.

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