"- Antes de pronunciar qualquer palavra, uma advertência: o direito
te reserva três perguntas e o dever me obriga três respostas. A seguir,
inverte-se a condição, mas eu te interrogo com uma simples pergunta. O sonho não acaba,
mas tu despertarás. E a vida já não será a mesma, jamais será a mesma.
Ponderação e astúcia podem te servir mais do que eloquência. Os dados
estão lançados. Boa sorte, viajante", disse em voz baixa o clone do
Iscariotes, misterioso habitante do plano cartesiano da antimatéria.
Talvez
prefirisse o Judas retornar ao labirinto, sair daquela emboscada em que
sua mente o deixara e viver para sempre no exílio existencial.
x.x.x.x.x
Judas pensou em perguntas óbvias. "Quem sois?", "de onde vens?", etc, mas atentou às palavras ditas por seu "eu", conselheiro da astúcia e ponderação.
Era óbvio que ele era o próprio Judas. Um Judas isomérico, em forma levógira, seduzindo e desviando a "luz da razão" para o lado do sinistro. Assim tão evidente era também que aquele local servia como um "mirante" do avesso,a sala de leitura quântica da realidade. O lar dos "opositores", o balneário dos exegetas das escrituras das "heresias". Heresis, "o pensar diferente".
Logo atrás, a poucos passos, o campo de batalha enxadrista com peças vivas completava o elenco. Cada uma em sua posição, lado a lado,ia preenchendo o quadriculado e observavam o duelo à parte entre o Iscariotes e seu alter ego.
Um detalhe despertava a curiosidade do examinador: a ausência dos "reis" no tabuleiro, fato capital para um jogo cujo objetivo maior é justo o regicídio!
- Por que um labirinto se transforma em tabuleiro de xadrez no espelho? inquiriu o Iscariotes, fazendo a primeira pergunta.
E sua imagem lhe respondeu:
- Em um "labirinto" se sentem quase todos que pela vida passam. A cada passo,um avanço incerto,a privação do direito de errar, o chão se esvaindo e o risco de deparar-se com um corredor sem saída. Sem esquecer que os passantes do labirinto sequer tem certeza do seu destino, o que realmente estão buscando, muito menos de quem estão fugindo...
O "xadrez" tem a bélica dramaturgia do confronto. Cada um escolhe que papel melhor lhe caberá no elenco da existência.
Alguns, soterrados pela moral de ressentimento, "moral de escravo", conseguirão servir à batalha apenas como "peões". Avançam tímidos, a passos curtos, sem olhar para os lados.
Há ainda aqueles que serão grandes, exuberantes, mas morrerão estáticos e inflexíveis, apenas parcela de figurino e cenário. O jogo os terá como "torres".
Há os "cavalos" e os "bispos", excelentes guerreiros, cinéticos e saltitantes, mas são militares, não pensadores. Apenas cumprem "ordens". Muitas vezes até desconhecem de quem.
O "rei" e a "rainha" são os protagonistas dessa batalha existencialista. Majestades, não por dinastia, mas pela nobreza do espírito humano, "demasiado humano" e do seu reino sem "céu".
Reinam com a "moral do senhor", aquela que sabe de sua existência por si, além e apesar do "inferno" do outro.
Os exércitos de peças brancas e negras não se enfrentam, mas se completam. O xeque-mate é tão somente um impasse momentâneo entre o bem e o mal que habitam o mesmo tabuleiro. Não há escapatória. Há apenas imagens em espelho.
- Onde está o traidor nazareno? perguntou Judas, sem disfaçar o rancor, fazendo assim sua segunda pergunta.
- O teu "mestre" está escondido, mas logo ressurgirá, disparou o Iscariotes do espelho.
Amanhã é o dia do retorno. A páscoa da "ressurreição".
A maior das mentiras. Dir-se-á que jogou xadrez contra a morte e a venceu, mesmo ferido, cansado e abandonado no tabuleiro por todo seu exército.
Para complicar-se ainda mais, perdeu a "rainha" para ti.
A pesada cruz será o símbolo da moral plebéia, submissa e ressentida. Uma religião de devotos e fiéis "peões" escravos da moral do "coitadinho".
E ele seguirá acreditando que tu morreste no lugar dele, como planejaram seus lacaios em conluio.
Tardará o dia,mas tu o encontrarás.
Até lá,alcatéias e matilhas saudarão teu nome e tua honra com uivos e lamentos na escuridão, na longa noite de espera do teu reencontro com o nazareno.
Judas prosseguiu atento aos vaticínios de seu outrem, como um filho ouvindo os conselhos do pai.
- Por que faltam os reis ao tabuleiro? encerrava o Judas, gastando sua terceira e última pergunta.
- Porque estamos aqui e não lá no tabuleiro, eu e tu. Enquanto isso, nossos exércitos pálidos e obscuros nos aguardam. Mas a escolha é nossa, seremos "reis" ou "peões"?
Judas pensou em perguntas óbvias. "Quem sois?", "de onde vens?", etc, mas atentou às palavras ditas por seu "eu", conselheiro da astúcia e ponderação.
Era óbvio que ele era o próprio Judas. Um Judas isomérico, em forma levógira, seduzindo e desviando a "luz da razão" para o lado do sinistro. Assim tão evidente era também que aquele local servia como um "mirante" do avesso,a sala de leitura quântica da realidade. O lar dos "opositores", o balneário dos exegetas das escrituras das "heresias". Heresis, "o pensar diferente".
Logo atrás, a poucos passos, o campo de batalha enxadrista com peças vivas completava o elenco. Cada uma em sua posição, lado a lado,ia preenchendo o quadriculado e observavam o duelo à parte entre o Iscariotes e seu alter ego.
Um detalhe despertava a curiosidade do examinador: a ausência dos "reis" no tabuleiro, fato capital para um jogo cujo objetivo maior é justo o regicídio!
- Por que um labirinto se transforma em tabuleiro de xadrez no espelho? inquiriu o Iscariotes, fazendo a primeira pergunta.
E sua imagem lhe respondeu:
- Em um "labirinto" se sentem quase todos que pela vida passam. A cada passo,um avanço incerto,a privação do direito de errar, o chão se esvaindo e o risco de deparar-se com um corredor sem saída. Sem esquecer que os passantes do labirinto sequer tem certeza do seu destino, o que realmente estão buscando, muito menos de quem estão fugindo...
O "xadrez" tem a bélica dramaturgia do confronto. Cada um escolhe que papel melhor lhe caberá no elenco da existência.
Alguns, soterrados pela moral de ressentimento, "moral de escravo", conseguirão servir à batalha apenas como "peões". Avançam tímidos, a passos curtos, sem olhar para os lados.
Há ainda aqueles que serão grandes, exuberantes, mas morrerão estáticos e inflexíveis, apenas parcela de figurino e cenário. O jogo os terá como "torres".
Há os "cavalos" e os "bispos", excelentes guerreiros, cinéticos e saltitantes, mas são militares, não pensadores. Apenas cumprem "ordens". Muitas vezes até desconhecem de quem.
O "rei" e a "rainha" são os protagonistas dessa batalha existencialista. Majestades, não por dinastia, mas pela nobreza do espírito humano, "demasiado humano" e do seu reino sem "céu".
Reinam com a "moral do senhor", aquela que sabe de sua existência por si, além e apesar do "inferno" do outro.
Os exércitos de peças brancas e negras não se enfrentam, mas se completam. O xeque-mate é tão somente um impasse momentâneo entre o bem e o mal que habitam o mesmo tabuleiro. Não há escapatória. Há apenas imagens em espelho.
- Onde está o traidor nazareno? perguntou Judas, sem disfaçar o rancor, fazendo assim sua segunda pergunta.
- O teu "mestre" está escondido, mas logo ressurgirá, disparou o Iscariotes do espelho.
Amanhã é o dia do retorno. A páscoa da "ressurreição".
A maior das mentiras. Dir-se-á que jogou xadrez contra a morte e a venceu, mesmo ferido, cansado e abandonado no tabuleiro por todo seu exército.
Para complicar-se ainda mais, perdeu a "rainha" para ti.
A pesada cruz será o símbolo da moral plebéia, submissa e ressentida. Uma religião de devotos e fiéis "peões" escravos da moral do "coitadinho".
E ele seguirá acreditando que tu morreste no lugar dele, como planejaram seus lacaios em conluio.
Tardará o dia,mas tu o encontrarás.
Até lá,alcatéias e matilhas saudarão teu nome e tua honra com uivos e lamentos na escuridão, na longa noite de espera do teu reencontro com o nazareno.
Judas prosseguiu atento aos vaticínios de seu outrem, como um filho ouvindo os conselhos do pai.
- Por que faltam os reis ao tabuleiro? encerrava o Judas, gastando sua terceira e última pergunta.
- Porque estamos aqui e não lá no tabuleiro, eu e tu. Enquanto isso, nossos exércitos pálidos e obscuros nos aguardam. Mas a escolha é nossa, seremos "reis" ou "peões"?
Judas tentava se equilibrar sobre a afiada lâmina das sentenças do seu "amigo", quando ele disparou, sem misericórdia:
- Agora, conforme o trato, a minha única pergunta, viajante.
Por que tanto te entregas ao sono dos devaneios, quando na tua cama deita-se uma mulher como Madalena, tão cheia de encantos, pronta a te levar mais longe do que qualquer mandrágora?
Num sobressalto, o Iscariotes acordou-se confuso e úmido.
O pensamento enrolava-se como uma cobra a espremer-se mp interior de uma garrafa.
Judas percebeu que já estava sozinho. Madalena partira no meio da noite. Apenas suas roupas ali estavam.
As pegadas na areia invadiam e se perdiam mar adentro.
Vênus brilhava solitária entre as rugas do breu celeste.
Judas nunca mais foi visto.
x.x.x.x.x
- Agora, conforme o trato, a minha única pergunta, viajante.
Por que tanto te entregas ao sono dos devaneios, quando na tua cama deita-se uma mulher como Madalena, tão cheia de encantos, pronta a te levar mais longe do que qualquer mandrágora?
Num sobressalto, o Iscariotes acordou-se confuso e úmido.
O pensamento enrolava-se como uma cobra a espremer-se mp interior de uma garrafa.
Judas percebeu que já estava sozinho. Madalena partira no meio da noite. Apenas suas roupas ali estavam.
As pegadas na areia invadiam e se perdiam mar adentro.
Vênus brilhava solitária entre as rugas do breu celeste.
Judas nunca mais foi visto.
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