domingo, 3 de junho de 2012

F. G. Louco Entrevista - Atirem as pedras...


Maria Madalena o resgatara da amnésia e das falácias  embebidas pelo delírio alucinógeno, mas havia ainda a hercúlea tarefa de livrar-se dos guardas romanos e da corja de capangas do carpinteiro, a qual parecia tão insolúvel quanto se a dúzia de encargos do titã filho de Zeus fossem confiadas a um mortal desvalido.
 Judas atirou ao chão o pesado pedaço de madeira que trazia imposto à espalda e enxugou a fronte na manga imunda e maltrapilha do manto que lhe emprestavam à nudez. Os soldados tentaram detê-lo,resguardando a ordem, mas ele escapou-se e subindo numa pedra,  gritou:
- Eu não sou o nazareno, sou o Judas, aquele maldito traidor que entregou o cordeiro de deus por um saco de moedas.
A confusão logo se instalou. Vaias acompanhadas por  pedras começaram num crescente, oriundas da multidão. Um cataclisma armava-se em avalanche pétrea, alçado pela tensão superficial da ira popular.
Os guardas assustados tentaram esquivar-se da chuva de pedregulhos, a qual crescia como praga de gafonhotos, abrigando-se sob os escudos centuriões; assim acabaram perdendo-se do prisioneiro.
Quando o tumulto foi debelado e deram-se conta todos, Judas e Madalena já não estavam mais lá.
Fora mais fácil do que o imaginado. Às vezes, a má fama pode ajudar.
Os soldados acabaram dando voz de prisão a três dos insurgentes que teriam incitado o tumulto. E não tiveram dúvida, pregaram-nos às cruzes que já estavam programadas para a execução do dia. Afinal, ordens são ordens e a tarefa precisava ser cumprida.

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