O sol já tocava o zênite do céu do oriente.
Os mercadores cochilavam sob as sombrias
pilastras do templo, escondidos da febre do mormaço do meio-dia. Os
andrajos salpicados de pulgas e suor. A páscoa era vindoura.
A poucas vielas dali, detido e jogado no
calabouço, o prisioneiro Judas perambulava pelos vastos corredores da
alucinação em que fora arremessado, dissolvido na infusão da erva
maquiavélica.
O labirinto dos sonhos o despejou no
deserto, sem identidade, sem bagagem, um peregrino enfrentando as
tempestades de areia do Egito.
Exausto, faminto e alvejado por vento,
areia e delírios, ele avistou um oásis, nele a imagem de uma mulher
deitada à beira de um regato, na calmaria sedutora da luz púrpura do
crepúsculo.
As pernas do nômade discutiam
com seus olhos. A hipnótica miragem na linha do horizonte, tão perto e tão
distante, cobrava altos impostos ao seu físico já tão consumido. Os olhos e a alma mesmo assim
insistiam,a contravento
da razão.
- A travessia da tempestade de
areia valeria tantas recompensas quanto as brumas de Avalon? Uma Morgana o
aguardaria alhures?
As pernas bambas e exauridas
estremeceram como um arvoredo em vendaval.
- No deserto nem tudo que se vê
é miragem, disse a mulher, com voz rouca, completamente nua, sem esboçar qualquer timidez,
enquanto repousava os pés imersos nas águas cálidas do regato, sentada apoiando
as mãos sobre a areia branca do oásis.
Os cabelos longos e negros como
o mar do Cáucaso cobriam-lhe os ombros e os seios, tal como um véu que ora esconde, ora
revela. Entre as pernas, o sexo exposto, um
atentado ao pudor, de muito bom gosto.
x.x.x.x.x
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O
beduíno tuaregue Iscariotes desfez-se
dos panos e turbantes que serviam-lhe de escudo na batalha contra a
fúria do
deserto. Enxugou a fronte úmida e áspera pela tempestade, ajoelhando-se
lentamente, como se fora rezar a prece obrigatória. Não reconhecera a
própria imagem que se projetava no espelho d´água. Algo lhe furtara a
memória, agora espalhada por ventos alísios na direção do Saara. Lavou-se, buscando a água com as mãos em concha,
tentando estornar a lucidez. A imagem da mulher seria apenas mais uma
alucinação dentro
de outra que já experimentava.
Ele cedeu à tentação e
mergulhou por inteiro na água, saciando o corpo que suplicava por um banho. A
transparência líquida lhe concedia ver que os pés dela permaneciam lá, submersos. Sentia inclusive seu cheiro na água.
No fundo do lago permaneceu atônito por alguns
segundos, quando veio à tona, já quase sem fôlego e tocou-a nos pés, sentindo
que eram reais. Emergiu buscando ar renovado e deparou-se com
a mulher sorrindo, sentada onde a avistara antes. Ele a segurava pelos pés, como
se não tivesse a intenção de mais soltá-los.
- Eu não falei? "No
deserto, nem
tudo que se vê é miragem", sussurrou ela novamente, então já sob o manto
escuro da noite, o qual lembrava um véu de odalisca, cheio de detalhes e
brilhos, com constelações caleidoscópicas cintilando sobre a imensidão
desértica.
Estrelas cadentes
brincavam como vagalumes no escuro, enquanto a lua parecendo magoada,
minguava por uma fresta de nuvem passageira.
- Quem és? perguntou ele, intrigado.
Ela não escondeu um certo ar de desdém e respondeu com outra interrogação:
- Não é demasiado estranho a pergunta partir justamente de alguém que perdeu tudo, da memória à própria identidade?
Ele sorriu em rendição a tanta astúcia da parte dela e implorou:
- Então me digas, por favor, afinal quem sou eu?
- Tu és o que foi traído e entregue para morrer.
A resposta veio em tom solene e o derrubou.
Ele engoliu as palavras, sentindo a boca seca e amarga.
- Te aprisionaram e
logo morrerás na cruz. Morrerás no lugar daquele que, ao raiar do
terceiro dia, reaparecerá blefando "ressurreição". Assim,o nome dele
será santo pelo teu sangue derramado e usurpado para a fundação de um
engodo chamado "religião"!
- Então, Judas é o meu nome, refletia o viajante em silêncio, tentando despertar da viagem psicotrópica.
- Sim, respondeu a mulher, como se ouvisse seus pensamentos.
- Agora permite-me saber quem sois? indagou ele, em tom de incerteza, resistindo aos desafios de sua nudez frontal, traçada em vales e montes de um relevo tentador.
- Eu sou aquela que
estava aqui desde o princípio. Já me deram muitos nomes.
Serpente,bacante,Salome ou Madalena.Outras vezes Morgana,bruxa,vaca
profana, feiticeira,luxúria, blasfêmia ou heresia. Sou a tentação que
evitam em vão.
Ele tinha as certezas
do solitário marinheiro mediterrâneo encantado por formosas sereias.
Ela o abraçou com as pernas, tentáculos irresistíveis, trazendo-o junto
de si, fazendo-o tocar e sentir seu sexo.
- Sou a própria
condição humana e, ao mesmo tempo, fã dela. Sou a mãe, a filha, a esposa
ou a amante, adúltera, virgem ou santa prostituta. Sou a que gera, mas
também aborta. Sou o maldito fruto do ventre proibido e impuro. Meu nome
é Lilith, mas poderia ser qualquer outro.
Ele sentia como se os dedos tocassem acordes de alaúde numa tenda saudita em noite de festa e os olhos dela brilhavam acendendo fogueiras.
Lilith contorcia-se em ritmo crescente, até que um gemido escapou-lhe dos lábios e o ventre se contraiu como um arauto para anunciar o
orgasmo que irrompia. A tênue areia branca vazava-lhe pelas mãos
fechadas em espasmo,esmagando o tempo, reduzido-o a um mero filtrado no
vidro da ampulheta.
x.x.x.x.x
Aos poucos a miragem se desfez. O despertar do fascinante e inesperado
encontro com Lilith o reduzia ao confinamento da prisão.
Mal acordou e a escuridão do calabouço foi ferida na face por esparsos e
agudos golpes de raios de luz. Um forte clarão tomou de assalto seus
olhos de pupilas dilatadas pela mandrágora. Diante de si um borrão de
silhueta confusa.
A
porta moveu-se e os guardas entraram para buscá-lo. Lembrou-se então do que a
mulher havia lhe revelado no deserto. O nazareno fugiria e o deixaria
entregue à morte em seu lugar.
Ergueu-se pelas mãos de terceiros. E saiu da cela apenas porque a força
alheia o conduzia apoiado pelos ombros. Um julgamento o aguardava.
x.x.x.x.x
Judas, ainda inebriado e bastante cansado daquela epopéia lilithiana,
fora levado a Pilatos, que o aguardava com grande expectativa.
- Quem és? perguntou Pilatos.
- Aquele que foi traído e entregue para morrer, disse o prisioneiro.
- Acaso te achas um mártir, um messias? inquiriu o governador da Judéia.
- Eu fui traído e entregue para morrer crucificado, repetia o Judas, relembrando as palavras de Lilith.
- Esquece isso, rapaz, eu sei que isso é idéia da tua mãe, aquela louca
que diz que tu és filho de um anjo e vieste como um messias.
Os sacerdotes observavam aquele diálogo e cochichavam.
- Em verdade, em verdade vos digo, eu andei pelo deserto e tive a
revelação de tudo o que acontecerá! recitava o Judas.
- Que ideia fixa. Para de falar essas bobagens por aí e eu te liberto, disse Pôncio Pilatos.
O Judas mal esperou o governador terminar a proposta e sentenciou novamente:
- Meu sangue será derramado para a nova aliança, fui traído e morrerei na cruz para a salvação da humanidade!
Os sacerdotes reagiam com olhares de reprovação, acompanhados pelo povo que se aglomerava com a curiosidade chula que lhe é contumaz.
Pilatos ainda buscou uma última saída, oferecer a libertação do suposto culpado.
Ora, havia o costume, por ocasião da festa dos ázimos,do governador libertar um preso, escolhendo o povo aquele que quisesse.E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás. Portanto, estando eles reunidos,trouxeram o ladrão e colocaram-no lado a lado com o Iscariotes.
Pôncio Pilatos voltou-se para o povo e perguntou-lhes:
- Qual quereis que vos solte?
Os amigos do carpinteiro de Nazaré estavam infiltrados em meio à turba e gritaram em antecipação, incitando-os:
- Barrabás, Barrabás, libertem Barrabás! o coro bradava aos berros, sob o sol da manhã e a liderança do exaltado João Evangelista, o qual andava com dificuldade, soterrado pelo disfarce de vestes femininas, dignas de uma religiosa recatada.
Barrabás foi libertado e saiu carregado nos braços do povo.
Os asseclas do carpinteiro corrreram a dar-lhe a boa nova, pois ele havia se escondido ao norte de Jerusalém, enquanto seus seguidores perambulavam disfarçados pela cidade, testemunhas e cúmplices do derradeiro destino do Iscariotes.
O cordeiro de deus estava salvo e o bode expiatório enviado ao sacrifício.Uma velha tradição monoteísta, assiduamente celebrada ao longo de toda história.
Pilatos perdeu a paciência e foi lavar as mãos.
Pilatos ainda buscou uma última saída, oferecer a libertação do suposto culpado.
Ora, havia o costume, por ocasião da festa dos ázimos,do governador libertar um preso, escolhendo o povo aquele que quisesse.E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás. Portanto, estando eles reunidos,trouxeram o ladrão e colocaram-no lado a lado com o Iscariotes.
Pôncio Pilatos voltou-se para o povo e perguntou-lhes:
- Qual quereis que vos solte?
Os amigos do carpinteiro de Nazaré estavam infiltrados em meio à turba e gritaram em antecipação, incitando-os:
- Barrabás, Barrabás, libertem Barrabás! o coro bradava aos berros, sob o sol da manhã e a liderança do exaltado João Evangelista, o qual andava com dificuldade, soterrado pelo disfarce de vestes femininas, dignas de uma religiosa recatada.
Barrabás foi libertado e saiu carregado nos braços do povo.
Os asseclas do carpinteiro corrreram a dar-lhe a boa nova, pois ele havia se escondido ao norte de Jerusalém, enquanto seus seguidores perambulavam disfarçados pela cidade, testemunhas e cúmplices do derradeiro destino do Iscariotes.
O cordeiro de deus estava salvo e o bode expiatório enviado ao sacrifício.Uma velha tradição monoteísta, assiduamente celebrada ao longo de toda história.
Pilatos perdeu a paciência e foi lavar as mãos.
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Judas voltou ao calabouço. E tentou retornar à viagem pelo deserto, para um "último desejo" com Lilith. Encontrou apenas a realidade da tortura do cárcere, premonitora da execução que ele mesmo já era sabedor. Na última refeição, comeu o pão que seu inimigo amassou. Açoitaram-no com chibatas e escárnio, chamando-o de "rei dos judeus".
Subjugado ao céu vespertino, rajado de nebulosas e desbotada lua nova, Judas foi arrastado pelas ruas, convicto de sua identidade e ludibriado pelo próprio destino. O cortejo errante arrastava-se em procissão, perseguindo-o até o patíbulo.
No cume do Gólgota, abutres em disputa pelos prazeres da carne pútrida faziam dos ares um lago de aves de rapina. Um ballet zigue-zague sobre as carcaças humanas, espetadas no mostruário do açougue romano de estacas em cruz.
Os miasmas espirais incensavam ao vento, fazendo arder as narinas dos passantes a léguas dali.
Aquela trama tinha requintes de detalhes. A mãe do nazareno seguia-os às lágrimas, dissimulada, fazendo-se crédula de que ali desfilava o condenado fruto do seu ventre,cruelmente entregue ao calvário.
A corja de capangas do carpinteiro vigiava as cercanias e o bom andamento da execução.
- Eu fui traído e entregue para morrer crucificado, repetia o Iscariotes, exausto, já em vias do abandono do que lhe restara do estado de consciência.
Ao limiar do cadafalso, caiu de joelhos, sentindo o amaro acético dissabor do vinagre que ora lhe emprestavam aos lábios, em troco às súplicas por água. Ali, genuflexo e completamente resignado, viu o átimo da tempestade de areia subir das entranhas do chão,tal qual um vulcão extinto que se manifestasse em desagrado pelo incômodo desferido ao seu sono.As pedras sacudiram-se em solavanco e uma mulher deparou-se à sua frente, quase nua e com distinção de beleza levantina.
A memória começava a se reconstruir, como um filme rodado em reverso.
- Madalena? O que fazes aqui? disse ele, com a voz tracejada pela língua víscida em secura.
Judas voltou ao calabouço. E tentou retornar à viagem pelo deserto, para um "último desejo" com Lilith. Encontrou apenas a realidade da tortura do cárcere, premonitora da execução que ele mesmo já era sabedor. Na última refeição, comeu o pão que seu inimigo amassou. Açoitaram-no com chibatas e escárnio, chamando-o de "rei dos judeus".
Subjugado ao céu vespertino, rajado de nebulosas e desbotada lua nova, Judas foi arrastado pelas ruas, convicto de sua identidade e ludibriado pelo próprio destino. O cortejo errante arrastava-se em procissão, perseguindo-o até o patíbulo.
No cume do Gólgota, abutres em disputa pelos prazeres da carne pútrida faziam dos ares um lago de aves de rapina. Um ballet zigue-zague sobre as carcaças humanas, espetadas no mostruário do açougue romano de estacas em cruz.
Os miasmas espirais incensavam ao vento, fazendo arder as narinas dos passantes a léguas dali.
Aquela trama tinha requintes de detalhes. A mãe do nazareno seguia-os às lágrimas, dissimulada, fazendo-se crédula de que ali desfilava o condenado fruto do seu ventre,cruelmente entregue ao calvário.
A corja de capangas do carpinteiro vigiava as cercanias e o bom andamento da execução.
- Eu fui traído e entregue para morrer crucificado, repetia o Iscariotes, exausto, já em vias do abandono do que lhe restara do estado de consciência.
Ao limiar do cadafalso, caiu de joelhos, sentindo o amaro acético dissabor do vinagre que ora lhe emprestavam aos lábios, em troco às súplicas por água. Ali, genuflexo e completamente resignado, viu o átimo da tempestade de areia subir das entranhas do chão,tal qual um vulcão extinto que se manifestasse em desagrado pelo incômodo desferido ao seu sono.As pedras sacudiram-se em solavanco e uma mulher deparou-se à sua frente, quase nua e com distinção de beleza levantina.
A memória começava a se reconstruir, como um filme rodado em reverso.
- Madalena? O que fazes aqui? disse ele, com a voz tracejada pela língua víscida em secura.
- Judas, não é demasiado estranho a pergunta partir justamente de ti? O que fazes tu aqui? devolveu-lhe ela.
- "Eu fui traído e entregue para..." tentou explicar o Iscariotes com aquela mesma ladainha que trazia decor, como a liturgia de uma ordinária missa, todavia foi abruptamente interrompido.
- Judas, tu foste traído sim. Traído e ludibriado pelo nazareno e os capangas dele. Eles te envenenaram com mandrágora misturada a tua bebida e tramaram tudo isso. O resto foi metáfora da tua imaginação, uma longa viagem pelos teus arquétipos, explicou ela.
- Acaso és uma miragem de novo? implorou ele.
- Imagina, respondeu ela.
- Mas por que tudo isso? indagou-lhe o condenado Judas.
- Ele apostou alto e perdeu para ti. É só isso que sei. Deve ter apostado muitíssimo alto. Vai saber. Algo que agora talvez não queira te entregar. Ainda vou descobrir... Mas agora é hora de te tirar daqui!
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- "Eu fui traído e entregue para..." tentou explicar o Iscariotes com aquela mesma ladainha que trazia decor, como a liturgia de uma ordinária missa, todavia foi abruptamente interrompido.
- Judas, tu foste traído sim. Traído e ludibriado pelo nazareno e os capangas dele. Eles te envenenaram com mandrágora misturada a tua bebida e tramaram tudo isso. O resto foi metáfora da tua imaginação, uma longa viagem pelos teus arquétipos, explicou ela.
- Acaso és uma miragem de novo? implorou ele.
- Imagina, respondeu ela.
- Mas por que tudo isso? indagou-lhe o condenado Judas.
- Ele apostou alto e perdeu para ti. É só isso que sei. Deve ter apostado muitíssimo alto. Vai saber. Algo que agora talvez não queira te entregar. Ainda vou descobrir... Mas agora é hora de te tirar daqui!
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