terça-feira, 29 de maio de 2012

A Sorrateira e Derradeira Continuação


García recusava-se a pronunciar o nome do carpinteiro, o que levou-o a chamá-lo apenas pelo suposto e inusitado heterônimo. Uma forma de dar-lhe vida e existência, pelo simples fato de falar dele.
- "Judas Iscariotes"... resmungou entre os dentes o García, ainda incrédulo com as revelações, enquanto cada um recebia as cinco cartas da próxima rodada.
As idéias se embaralhavam mais do que as cartas, sem tomar sentido, sem "formar um jogo". Ele jogou alto para estar ali, naquela cripta.Abandonou tudo por aquela viagem, por aquela entrevista. E agora, Judas nunca existira.
A traição, idem.
Mas havia algum segredo naquela "santa" mesa.
Algo estranho. Algo que parecia mais estranho que o próprio "four" de ases que ele acabara de receber de mão.
O anfitrião dera as cartas,olhando-o nos olhos, em tom de desafio. García ergueu suas cartas, sem esboçar reação alguma.
O olhar do nazareno o espreitava, aguardando qualquer deslize, qualquer fenestra, um soslaio que denunciasse o teor das cartas que arrecadara. Nada. Despido de mímica e soterrado por um disfarce catatônico, García escondia-se da tensão que os cercava como malha de arame farpado.
As fichas amontoavam-se ao centro da mesa.

O "four" de ases veio pronto. E bastou ao FGL o artifício de trocar uma carta, apenas uma carta, o suficiente para disfarçar a excelente condição.
O nazareno suspirou, reprisando o olhar já dispensado antes.
Todos entreolharam-se.
- Tô fora! disse Pedro, desanimado.
- Eu também, mestre, disse João.
- Quem vai dentre vós? perguntou o carpinteiro de Nazaré.
- Eu vou, mestre, respondeu Tomé.
- E tu, García? estenderam a indagação.
- Sim, respondeu o louco, monossilábico.

x.x.x.

Bartolomeu alisou a barba, trocando o copo por um punhado de fichas e apostou em silêncio.
Tomé voltou-se para ele e desafiou: - Pago pra ver! Duvido do que tens aí! Só acredito vendo!
Todos riram. Tomé tinha fama de incrédulo.
Bartolomeu resumiu-se a um riso discreto, comparado aos demais.
O nazareno estendeu a mão ao centro da mesa e dobrou a aposta, multiplicando as fichas, como um "milagre ". Agora todos o olhavam desconfiados, pois ele não havia trocado uma carta sequer.
- Mestre, estás a blefar? perguntou o intrigado Bartolomeu, rompendo o divino silêncio.
O anfitrião guardava o piedoso olhar que o García tanto odiava.
- Em verdade, em verdade vos digo,trago o sinal dos tempos... Estou com um "royal straight flush", de mão, argumentou o nazareno, como se pregasse aos presentes.
García o fuzilava com o olhar, com o mesmo sincero desejo que sempre teve de fuzilá-lo realmente.
- Pago pra ver, "mestre"... disse o FGL, enquanto arrastava todas as suas fichas de encontro ao monte das apostas. Agora mostra o que escondes, mostra o teu "royal straight flush" de mão, ó coitadinho de Nazaré! Quem sabe não fizeste o milagre da multiplicação dos "ases"... Pois os quatro estão aqui na minha mão!
- Vamos, mestre, acaba com ele, disse João.
E o nazareno precisou ser amparado pelos discípulos enquanto revelava o punhado de cartas. As mesmas estampavam apenas um discreto par de nove.
A eloquência da mesa evaporou-se, transformada em afasia coletiva.Silêncio.
O García sentiu-se um soldado romano com o destino do nazareno nas próprias mãos, tinha um four de ases,"quatro cavaleiros do apocalipse" prestes a  passar por cima do rei deposto. O 'rei dos reis' estava nu, com um par de nove e um blefe ridículo. Enfim, Nietzsche triunfava. E deus estava morto.

x.x.x.

O blefe do carpinteiro era a metáfora que faltava para a sequência daquele jogo. O messias blefava. E quantas vezes mais teria blefado em seus sermões, sem que alguém "pagasse para ver"?
Quantas vidas foram arrastadas como fichas de jogo por aquele dilúvio de blefes e intimidações chamado "religião"?


O nazareno não conseguia disfarçar a inquietação, García não escondia a satisfação por isso.
Um copo de vinho na mão e o punhado de cartas na outra, o FGL disparou:
- Um brinde ao nazareno!

- Tomai e bebei, sentenciou ironicamente o García.

x.x.x.

Nas paredes úmidas da cripta, as sombras projetadas pelas silhuetas pareciam estáticas,uma pintura rupestre em cavernas paleolíticas. Uma pausa congelava a tela, como um defeito de projeção.
Naquele instante era possível ouvir o ronco do velho Lênin no mausoléu, um andar acima.
Alguém bateu à porta, o que roubou a atenção de todos. Mas não roubou o olhar do García que buscava intimidar o anfitrião.
- Abra a porta, Pedro, disse o nazareno, cochichando com o guardador de chaves.
- Sim, mestre, disse Pedro, atendendo-o prontamente.
A pequena porta que dava passagem às escadas se abriu.
Ao fundo, e distante da mesa, um vulto adentrou a cripta.
- Quem é, Pedro? perguntou o nazareno, em voz alta, mas com o olhar fixo e mais preocupado com as cartas do jogo do García.
- Sou eu, respondeu Maria Madalena, aproximando-se da mesa, saindo da vasta penumbra, completamente úmida pela chuva que não cessava há três dias e três noites.
García soltou as cartas num súbito, surpreso pela visita inusitada e, rendendo-se, deixou seu olhar a sós com ela.
Madalena, sempre quase nua, transparente pelo banho de chuva, aproximou-se do García, alvejada por todos os olhares masculinos e sentou-se no colo dele.
- Já que não guardam lugar às mulheres nessa mesa, tenho que buscar meu espaço, disse ela, enquanto suas roupas escorriam seu cheiro dissolvido na umidade, formando uma pequena poça debaixo da mesa.
O nazareno assustado era sentinela das cartas. O García, não mais.
O calor do abraço da noite escura da Praça Vermelha soprava novamente, agora sobre seu colo. 
- E então, estás com sorte no jogo? perguntou ela sorrindo.
García apenas pegou-a forte pela cintura e mostrou-lhe suas cartas.
Ambos riram.

x.x.x.

García segurava as cartas como uma arma prestes a disparar, quando a porta da cripta foi aberta.
Alguém que tinha as chaves acabara de entrar. O intruso não precisara bater, sequer se anunciou. E ficou ali, parado na penumbra, silente, junto à soleira, fora do alcance da visão de todos.
- Esperávamos por mais alguém, Pedro? interrogou o anfitrião àquele que tinha o controle das chaves da porta. No entanto teve como réplica a negação de Pedro.
- Tens certeza? insistiu.
- Absoluta, mestre, confirmou o ex-pescador. 
Um vento frio dava rasantes por debaixo da porta,fazendo bailar as chamas das velas e os tênues restos de uma teia de aranha, ancorada ao lustre.
Um calafrio tomou atalho pela espinha do nazareno, fazendo-o suspirar e sentir-se intimidado pela presença do intruso. Então, ele levantou-se e dirigiu a palavra ao canto onde o estranho invasor guardava-se.
 O visitante permanecia escorado à porta, porém quase impossível descrevê-lo. A escuridão não concedia.
- Qual é o teu nome? gritou o nazareno, com a voz trêmula.
-Meu nome é Legião, porque somos muitos,respondeu ele.
E o mesmo calafrio espalhou-se pela espinha de todos, sem fazer atalhos.
O estrangeiro riu e acendeu um cigarro que trazia no bolso do casaco.
- De onde vens? perguntou-lhe o nazareno.

E o estranho continuou a provocar. 

 
- "De rodear a Terra e passear por ela".
- Estás a zombar de mim, estrangeiro, saia daqui, eu te ordeno! disse tomado pela ira o nazareno.
O intruso seguia absolutamente comovido nas trevas litorâneas da cripta.
- O que queres aqui? bradou o nazareno,possuído pelo quarto pecado capital.
- Calma, mestre! Vim apenas buscar aquilo que me deves, não olvides da tua dívida comigo, disse o estrangeiro ao irromper da escuridão  e ser banhado pelo olhar de todos. 
- Judas Iscariotes, exclamou João Evangelista.
- Judas Iscariotes, seguiram-lhe em brado os demais apóstolos. 
O espanto e o pavor tomaram  de assalto a face do anfitrião, como se tivesse sido lançado em um desfiladeiro e nem todo o exército de arcanjos seria capaz de ampará-lo.
Sentiu-se mais fraco que um andarilho em quarentena no deserto.
- Vocês não o mataram? gritou o nazareno, sentindo sobre sua cabeça o lancinante peso de uma coroa de espinhos.
- Sim, mestre, nós o entregamos em teu lugar para o exército romano, explicava-se João,desesperadamente, confirmado pelos demais. Mas Pedro negou. Disse que não sabia de nada.
- Nós o entregamos para ser crucificado no teu lugar! tentava justificar-se Bartolomeu.
- Pai, afasta de mim esse cálice,suplicou de joelhos o nazareno, com as mãos à cabeça,olhando para cima, lavado pela angústia.
-Eu não vou acreditar nem mais no que vejo, repetia Tomé, desconsolado, sentando-se no chão sobre um pequeno tapete marroquino.
O intruso provocou o anfitrião mais uma vez:
- Vai ver eu ressuscitei,não é? disparou Judas, seguido por uma rajada de gargalhadas do García Louco.
Madalena tomou a taça de vinho da mão do FGL,com aquela cumplicidade que nasce tornando as palavras obsoletas.
- Ai, ai, viu... se soubessem da missa a metade, suspirou Madalena, deixando a marca do seu lábio na taça do García. 
- Não tenho dívidas contigo! retrucou o nazareno.
- Dívida de jogo é sagrada, mestre! ironizou Judas.

- Afinal, o que deves a ele? intrometeu-se a curiosa Maria Madalena.
x.x.x.

Apenas aqueles treze antigos parceiros de pôquer sabiam o que tinha ocorrido naquela longínqua páscoa judaica, em território palestino, há dois mil anos.
Na fatídica noite da última reunião, Judas sentara-se com a sorte em seu colo e estava ganhando todas as rodadas. O carpinteiro não recebia bem a derrota e insistia em apostar, mais e mais.
Volta e meia olhava para o céu e dizia "pai, pai por que me abandonaste?", mas na próxima rodada, outra leva perdida.
Arruinado, perdeu seus últimos cobres,um saco de dez moedas, quando pelo entusiasmo da posse de uma sequência, apostou tudo o que lhe restara. Judas surpreendeu-o com um "four" de valetes!
Judas já guardava o saco de moedas que ganhara honestamente,mas eis que o nazareno, entusiasmado pelo vinho, voltou à mesa e disse ao Iscariotes "uma última rodada, valendo tudo!", dando um tapa sobre a mesa.
Todos riram-se demoradamente, pois ao nazareno não restara nem as sandálias, perdidas em um dos arriscados blefes.
Judas disse-lhe "e o que apostarias, mestre, por acaso o teu trono?" 
O nazareno escorava-se nos ombros de Pedro e Bartolomeu.
Após alguns segundos, retomou o fôlego e respondeu "aposto tudo que tenho: Madalena." "Fechado", concordou Judas, sem hesitar.

x.x.x.

Até o mais ignorante dos beduínos ou desavisado dos pastores das colinas do Golan sabia que Madalena não pertencia ao carpinteiro. Aliás, não pertencia a ninguém. Maria Madalena era Lilith em pessoa. Não seria nunca propriedade de homem algum.
Se perdesse a aposta, o arruinado nativo de Belém não teria como honrá-la.O Iscariotes sabia disso, mesmo assim topou arriscar.
A mesa encheu-se novamente e todos retomaram seus assentos. Uma nova rodada de vinho foi servida, agora por conta de Judas.
João embaralhou e deu as cartas. O nazareno as benzeu com um sinal da cruz, antes de pegá-las, cerrou os olhos e abriu-as lentamente diante de si, escondendo a face.
- E então, mestre? arguiu o Iscariotes.
O croupier João Evangelista os observava, assessorado pelos demais. 
- Troco três, disse o anfitrião, entregando as cartas.
- Nada, disse o Judas, lacônico, erguendo a mão esquerda em negativa.
Na mesa, postas as fichas do Iscariotes, formando um monte quase tão alto quanto o Sinai. A aposta do anfitrião não estava ali. Devia estar a rodear e passear pela terra.
O croupier trapaceara a favor do mestre, aproveitando-se do movimento da troca e passar de cartas. Uma trinca de "reis magos" foi enviada de presente ao nazareno, como uma benção divina.
Judas não se importava, apreciava a cena, o desespero e as trapaças do perdedor.
- Então, mestre? manifestou-se João.
O nazareno soluçou e baixou seu jogo, sem cerimônias.
- Santíssima Trindade de reis! gritou Pedro, em tom de euforia, saudado por palmas.
O Judas fechou os olhos e baixou a cabeça.
- E tu? interrogava Bartolomeu o oponente, transbordando em ansiedade e vinho.
O Iscariotes baixou três cartas, segurando outras duas.
- Trinca de seis! gritaram todos, pulando de alegria e beijando o mestre, supostamente vencedor.
Todos o beijaram, menos o adversário, que seguia sentado com as duas cartas restantes na mão.
- Aqui há sabedoria, disse o Judas apontando a trinca de seis. E aquele que sabe, calcule, porque o número do homem é o número seiscentos e sessenta e seis... 
E prosseguiu.
- Sabem que a minha trinca de nada serviria sem este par de damas? E baixou uma dama de copa e uma dama de espada.
A última, a de espada, é a Salome seduzindo e decapitando o teu Batista; já a primeira, de copa, te consome em dúvidas, devastando e derretendo o teu coração, Madalena! A casa está cheia... É um "full house", meu mestre trapaceiro. 

As cartas e as palavras açoitavam o nazareno, impondo-lhe mais amarguras que o vinagre ofertado como água a um sendento.
S
ó lhe restavam lágrimas no monte das oliveiras.
Enquanto falava o vencedor Iscariotes, revelando e discorrendo sobre o poder de suas cartas, João Evangelista reincidiu em ardiloso subterfúgio de trapaça, substituindo a taça de vinho de Judas por outra. A nova com conteúdo especial, sementes de mandrágora.
Lucas, o sírio, era médico e profundo conhecedor dessa planta e seus efeitos narcóticos.
O Iscariotes bebeu uma generosa dose da bebida batizada, caindo ao solo inconsciente, como se chegasse à exaustão. Todos correram para vê-lo de perto, desmoronado ao pé da mesa. O saco de dinheiro de Judas foi roubado pelo nazareno.
 
- Será que Ele morreu? perguntou João.
- Creio que sim, a dose era muita forte, respondeu o apóstolo médico.
- Tomara,mas vamos esperar... intrometeu-se o desconfiado Tomé.

x.x.x.

Dormiram ali, ao redor da mesa. O Iscariotes permanecia inerte, sendo velado pelos amigos traidores. 

Acordaram-se sob os gritos dos soldados romanos.
Havia uma denúncia.
Todos ergueram-se, menos o nazareno, que já não estava lá e o inebriado Judas que seguia perdido no distante mundo de Hipnos e Morfeu. 
- Recebemos denúncia de que há alguém aqui que se diz "rei" e quer ameaçar o imperador de Roma, pregando rebeliões e prometendo o céu, bradou o centurião.
- Deve haver algum engano, senhor, aqui nos reunimos apenas para jogar, disse Pedro.
- E este aí, por que não levantou? arguiu a escolta, apontando para o Iscariotes.
- Ele é o "líder", ainda não acordou porque bebeu muito vinho, explicou João.
Os guardas vasculharam tudo e não acharam pistas, nem dinheiro de apostas, nem qualquer outra evidência de jogo por ali.

- Prendam o líder subversivo! ordenou aquele que os comandava.
- Você estava junto? perguntaram a Pedro.
Ele negou.
Judas foi então o único levado às masmorras,inconsciente,sob o efeito da mandrágora.

x.x.x.x.x

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