Ao redor da mesa, todos aguardavam o desenlace daquele duelo entre o Judas e o nazareno nos subterrâneos do Kremlim.
Dois milênios de espera...agora em tempo de desfecho.
Dois milênios de espera...agora em tempo de desfecho.
Se por desventura, alguém violasse as restrições de acesso e lograsse êxito adentrando a soturna sala, pensaria que se tratasse de uma sessão secreta dos bávaros da "Ordem Illuminati", por suposto disputando o governo oculto do mundo.
A hipótese de um colóquio de loja maçônica não seria absurda,mas a presença de uma figura feminina à mesa gerava controvérsias.
E todas hipóteses se confundiam e desalinhavam o raciocínio.
E todas hipóteses se confundiam e desalinhavam o raciocínio.
O ensejo provavelmente não remetesse à cena da "última ceia", aquela da famosa tela com o carpinteiro e sua quadrilha de falsários,retratados por Leonardo Da Vinci. Mesmo que fosse esta exatamente a correta assertiva, com todo o elenco parecendo ali congelado, em pausa, tal qual o famoso quadro renascentista.
O silêncio do sótão foi roubado por um grave ulular que retumbou pelas escadarias da cripta. Uivos de cães e lobos, habitantes fantasmas das paredes do mausoléu de Lênin, rasgavam o silêncio em saudação ao plenilúnio moscovita. Parecia uma espécie de ode ao Judas renegado.
As chamas das velas e candelabros que iluminavam a sala bem que tentaram, mas acabaram por sucumbir à ventania que parecia surgir do vácuo.
As cartas do pôquer caíram da mesa, flutuando em redemoinho.
As cartas do pôquer caíram da mesa, flutuando em redemoinho.
O vento acompanhava o sarau do choro lúpico. O choro das feras que não se abalam com as idiossincrasias da escuridão.
De olhos arregalados e pupilas crivadas de suspense e medo, permaneciam todos os presentes exatamente como antes, espremidos pela completa insegurança do blecaute. Até respirar era difícil.
A tempestade e as feras foram se recolhendo ao silêncio,uma a uma, saindo e deixando para trás apenas as trevas que inundavam a sala. Trevas de um farol náutico ao contrário, farol apagado no feixe da penumbra dos penhascos e encostas do litoral, como uma traiçoeira vigia à espera do marinheiro imperito.
Uma voz estranha e que não pertencia a nenhum dos presentes até então, surgiu emitida por alguém postado nas proximidades da porta.
- "Hoje é o dia do teu Juízo Final, nazareno!" bradou com euforia o ilustre visitante.
O nazareno, seus "apóstolos", Maria Madalena, F. G. Louco e mesmo o Iscariotes seguiam paralisados nos seus lugares, sem enxergar nada e querendo descobrir quem era o recém chegado ao porão da cripta.
Madalena achou a mão do Iscariotes no escuro e segurou-a firme, acreditando estar apegando-se à mão do García.
O Judas retribui-lhe no entrelaçar justo dos dedos, imaginando a noite às margens do mar Morto.
Naquele mesmo instante, os asseclas do nazareno apressavam-se, aproveitando a falta de luz, preenchendo as taças de vinho dos presentes com raízes de mandrágora. Um velho hábito quando caíam encurralados e tramavam fugas espetaculares.
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